TRAIÇÃO NUMA LINHA DE FUGA

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A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. (…) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações.
(Theodor W. Adorno, «Caracterização de Walter Benjamin», 1955: 23)

Por muito benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta afirmação e as duas notas das próprias Passagens (…) em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste sentido.
(Rolf Tiedemann, «Introdução» a Walter Benjamin, Paris, Capital do Século XX. O Livro das Passagens, 1989: 12n)

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Há sempre traição numa linha de fuga. Não fazer batota como um homem do sistema que programa o seu futuro, mas trair como um homem simples que já não tem passado nem futuro. Traem-se os poderes fixos que nos querem reprimir, os poderes estabelecidos da terra. O movimento da traição foi definido pelo duplo desvio: o homem desvia a sua cara de Deus, que igualmente desvia a sua cara do homem. É neste duplo desvio, no afastamento das caras, que se traça a linha de fuga, quer dizer, a desterritorialização do homem.
(Gilles Deleuze e Claire Parnet, Diálogos, 1977: 52)

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Todo aquele que se declarar por Mim diante dos homens, também Me declararei por ele diante do Meu Pai que está nos Céus. Mas aquele que me negar diante dos homens, negá-lo-ei também diante do Meu Pai que está nos Céus. Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada.
(Evangelho segundo S. Mateus, 10: 32-4)

Tomando a palavra, Pedro respondeu-Lhe: «Ainda que todos se escandalizem de Ti, eu nunca me escandalizarei.» Jesus retorquiu-lhe: «Em verdade te digo que esta mesma noite, antes de o galo cantar, Me negarás três vezes.» Pedro disse-Lhe: «Mesmo que tenha de morrer Contigo, não Te negarei.»
(Evangelho segundo S. Mateus, 26: 33-5)

E ela olhou-o de novo e viu que não era o Messias.
O Messias não se erguera. O entusiasmo e a pureza
escaldante não eram mais, nem a juventude
arrebatada. A juventude morrera nele. Este homem
era de meia-idade, desiludido, com uma certa
indiferença terrível e uma resolução que o amor
nunca venceria. (…) O homem erguido era a morte
do seu sonho.
(D. H. Lawrence, «O homem que morreu», 1920: 138)

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Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com
os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Quanto me
dareis se eu vo-Lo entregar?»
(Evangelho segundo S. Mateus, 26: 14-5)

Vejam os apóstolos, por exemplo. Deixam-me bestialmente chateado, se querem saber a verdade. Portaram-se bastante bem depois de Jesus morrer e assim, mas enquanto Ele estava vivo foram tão úteis para ele como um buraco na cabeça. A única coisa que faziam era estar sempre a deixá-Lo sozinho. Gosto mais de quase toda a gente na Bíblia do que dos discípulos. (…) O amigo Childs era quaker e tudo, e estava sempre a ler a Bíblia. (…) Dizia sempre que se eu não gostava dos discípulos também não gostava de Jesus e assim. Dizia ele que como Jesus escolheu os discípulos, nós tínhamos de gostar deles. Eu disse-lhe que bem sabia que Ele os tinha escolhido, mas que os tinha escolhido ao calhas.
(J. D. Salinger, À Espera no Centeio, 1945: 112)

Nenhum homem inferior pode ter um mestre, porque o mestre não tem nele nada de que o ser.
(Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 72)

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No meu trabalho para o Professor Story (…), ele fez um simples comentário de uma linha, que me atingiu em cheio. Escreveu: «Talvez Marcos tenha simplesmente cometido um erro.» Comecei a pensar no assunto, (…) Finalmente, concluí: «Hum… provavelmente, Marcos cometeu um erro.»
Feita esta admissão, as comportas abriram-se. Pois se podia haver um pequeno erro negligenciável no capítulo 2 do Evangelho de Marcos, também poderiam existir erros em outras passagens.
(Bart D. Ehrman, Os Monges que Traíram Jesus, 2005: 21)

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Alguns Mestres destruíram os seus discípulos (…)
Em contrapartida, alguns discípulos, pupilos,
aprendizes subverteram, traíram e
arruinaram os seus Mestres.
(George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 11)

Traem-se os poderes fixos que nos querem reprimir, os poderes estabelecidos da terra.
(Gilles Deleuze e Claire Parnet, Diálogos, 1977: 52)

pouso dinamite no alicerce.
(Luis Maffei, Signos de Camões, 2013: 29)

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Amanhã ou depois de amanhã vou perguntar-lhe com que é que
sonhou hoje, domingo, exactamente à uma e um quarto da
madrugada. Eu sonhei consigo morto
(Marina Tsvietaieva, Noites Florentinas, 1933: 62)

Agarrou na vela e pô-la ao meu lado no chão, ajoelhou-se ao pé da vela e abraçou-me os joelhos. – És uma traidora? – perguntou. – Vieste para a minha casa, a casa dele, a casa da minha filha, para nos trair?
(Djuna Barnes, Uma Noite entre os Cavalos, 1929: 31)

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Eu não sou senhor professor doutor
minha não-senhora minha não-menina
e se estou de pé é ilusão de óptica
eu estou sentado todos nós sentados
isto é não rígidos não equilibrados
(Luiza Neto Jorge, Os Sítios Sitiados, 1973: 50)

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Também te feri, certamente, mais de uma vez com palavras, mas sabia
sempre que te ofendia, isso fazia-me mal, não me podia dominar bastante
para reter a palavra, estava ainda em acção de a pronunciar e já
lamentava o facto. Enquanto tu atacavas sem te preocupar com nada,
ninguém te inspirava piedade, nem no próprio momento, nem depois,
estava-se absolutamente sem defesa perante ti.
(Franz Kafka, Carta ao Pai, 1919: 15)

Levanta-se a questão, falando ao mesmo tempo com arrogância e sobriedade: Porque precisava Kafka de seu pai?
(Max Brod, Franz Kafka, 1937: 18)

Filho, meu filho, desiste de lutar contra
mim. Há mais de mim em você que de
você mesmo.
(Dalton Trevisan, Cemitério de Elefantes, 1964: 44)

Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!
(Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, poema sem título,
iniciado pelo verso «Mestre, meu mestre querido!», 1928:
246-7)

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HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Se nós abríssemos as portas de Münster ao inimigo, seria uma traição.
HEINRICH GRESBECK
Que é uma traição aos olhos de Deus?
HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Disseste que talvez Deus não seja senão o nome que tem.
Seja Ele um nome, ou mais do que um nome, a traição, que é coisa de homens, não significaria nada aos Seus olhos.
HEINRICH GRESBECK
Significaria, sim, se, de cada vez que traíssemos, soubéssemos de que lado Ele está.
(José Saramago, In Nomine Dei, 1993: 139)

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Ele era sacana, por nascimento e profissão, embora tivesse escrúpulos, um sacana com princípios.
(Pepetela, O Quase Fim do Mundo, 2008: 196-7)

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HEINRICH GRESBECK
(…) Não pode ser chamado traidor quem a Deus favoreceu.
(…)
Que faremos, então?
HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Trairemos Münster para não trair Deus.
(José Saramago, In Nomine Dei, 1993: 139-140)

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Riefenstahl, Resnais…: quem é fiel? Quem trai?
(Joana Matos Frias, «Os sais e as cinzas: dialéctica da anestesia na obra de José Miguel Silva», 2013: 61)

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HEINRICH GRESBECK
E se Deus não é mais do que o nome que tem?
HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Um dia se saberá, mas nós não o saberemos.
HEINRICH GRESBECK
Todo o acto humano é cometido nas trevas, todo o acto humano é criador de trevas.
Deus não é luz suficiente.
HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Não há, pois, outro Diabo senão o homem, e a terra é o lugar único do inferno.
HEINRICH GRESBECK
Traímos?
HANS VAN DER LANGENSTRATEN
Traímos.
(José Saramago, In Nomine Dei, 1993: 140)

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Freud não terá sentido surpresa. O parricídio estava presente na sua
leitura central de Édipo. A civilização emergira do assassínio do pai.
Identificando-se com Moisés, e entendendo o destino da psicanálise
como uma longa travessia do deserto, Freud terá intuído que Jung seria o
seu Aarão e Adler um «Judas».
(George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 103)

«É verdade, admitiu o corcunda; e aos alunos é permitido trair os segredos da escola.
Mas por que é que Zaratustra fala de uma maneira aos seus discípulos, e doutra a si próprio?»
(Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, II, 1883: 158)

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ADORNO, Theodor W.
1955 ed. ut.: «Caracterização de Walter Benjamin», in Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’Água, 1992: 7-26.

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BARNES, Djuna
1929 A Night among the Horses; ed. ut.: Uma Noite entre os Cavalos, Lisboa, Hiena, 1994.

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BROD, Max
1937 Franz Kafka – Eine Biographie; ed. ut.: Franz Kafka, Lisboa, Ulisseia, s/d.

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DELEUZE, Gilles, e PARNET, Claire
1977 Dialogues; ed. ut.: s/l, Flammarion, 1996.

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EHRMAN, Bart D.
2005 Misquoting Jesus. The story behind who changed the Bible and why; ed. ut.: Os Monges que Traíram Jesus. A história dos copistas que adulteraram a Bíblia, Lisboa, Lua de Papel, 2006.

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Evangelho segundo S. Mateus
s/d in Bíblia Sagrada, 15ª ed., Lisboa, Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 1991: 1288-1332.

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FRIAS, Joana Matos
2013 «Os sais e as cinzas: dialéctica da anestesia na obra de José Miguel Silva», Elyra, 1, http://elyra.org/index.php/elyra/article/view/11/10

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JORGE, Luiza Neto
1973 Os Sítios Sitiados; ed. ut.: Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim.

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KAFKA, Franz
1919 ed. ut.: Carta ao Pai, Lisboa, Guimarães, 2000.

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1920 ed. ut.: «O homem que morreu», in Amor no Feno e outros contos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1988: 125-168.

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MAFFEI, Luis
2013 Signos de Camões, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas.

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1883 Also Sprach Zarathustra, II; ed. ut.: Assim Falava Zaratustra, 11ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1997: 89-165.

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PEPETELA
2008 O Quase Fim do Mundo, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

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1997 Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, Lisboa, Estampa.

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SALINGER, J. D.
1945 The Catcher in the Rye; ed. ut.: À Espera no Centeio, Lisboa, Difel, 2005.

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SARAMAGO, José
1993 In Nomine Dei, Lisboa, Caminho.

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STEINER, George
2003 Lessons of the Masters; ed. ut.: As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005.

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TIEDEMANN, Rolf
1989 «Introduction» a Walter Benjamin, Paris, Capitale du XXe Siècle. Le Livre des Passages, Paris, Cerf, 1989: 9-32.

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TREVISAN, Dalton
1964 Cemitério de Elefantes; ed. ut.: Lisboa, Relógio d’Água, 1984.

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TSVIETAIEVA, Marina
1933 Neuf Lettres avec un Dizième Retenue et une Onzième ReçueNuits Florentines») ; ed. ut. : «Noites Florentinas», Lisboa, Hiena, 1994.

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A escrita deste texto foi financiada por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projecto «PEst-OE/ELT/UUI0500/2011».

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