Caro amigo,

Carlos Antunes

Carlos Antunes

regresso agora de um novo passeio ao nosso Jardim da Sereia e é comovido que me dirijo a ti, como cidadão, arquiteto, tão impressionado pela devastação. Mas ocorreu-me que talvez pudéssemos encontrar uma resposta criativa e positiva para a desgraça.

Não tenho memória, e creio que ninguém terá, de uma devastação semelhante no Jardim e julgo que este dia não deve ser esquecido. Esta tragédia sublinha a fragilidade da natureza e dos elementos naturais, e sublinha também por isso a fragilidade da nossa própria existência. Foi essa lição que aprendi, eu que procuro sempre obsessivamente ver o lado positivo de tudo.

Julgamos sempre que árvores seculares nos sobreviverão e que o seu tempo é infinitamente superior ao nosso. Este acidente demonstra o contrário. Desde a primeira hora te falei da minha vontade de reutilizar a madeira das árvores tombadas, e na altura considerei a possibilidade de a utilizar num pavilhão de exposições sobre o ambiente que me encontro a desenhar a convite do município de Paredes. Agora reconsidero essa possibilidade. Do resultado deste passeio, ocorreu-me que talvez fosse possível fazer um novo uso dessa madeira no Jardim da Sereia. Trata-se no essencial de madeira de cedro, uma madeira de grande qualidade, e lembrei-me, observando comovido um grande cedro derrubado, que era possível desenhar sob ele – suspendendo-o com uma estrutura de madeira que reutilizava a madeira derrubada – um pavilhão de leitura para as crianças que frequentam o parque, sob o domínio da ludoteca. Um pavilhão que seria também um memorial que nos lembrasse para sempre este dia, em que confrontados com a tragédia erguemos a cabeça. Um memorial como uma resposta criativa do tempo contra o tempo, como escrevemos com o nosso amigo Luís Quintais, na memória descritiva da nossa proposta para o memorial do World Trade Center em Nova Iorque.

Se considerarmos esta possibilidade, deveremos falar o quanto antes, antecipando a fúria da motosserra que tudo limpa, até a memória.

Um abraço amigo do

Carlos Antunes

(sobre a devastação no Jardim da Sereia, em Coimbra, causada pela tempestade do dia 19 de Janeiro de 2013)

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