Monthly Archives: Novembro 2012

Sunset TVs

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https://vimeo.com/58046229

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Sunset TVs
ambiguidade e lucidez na obra de arte

Recuando ao título de uma exposição minha de há alguns anos e de uma canção que fiz com o João Taborda, encontro um possível mote para um percurso pelas minhas exposições mais recentes.
De facto, cada título de uma pintura, exposição, canção, vídeo, pode assumir um sentido particular e absoluto como tradução da experiência estética.
Sendo dada uma obra de arte, esta manifesta a sua condição de catalisadora de sentido, na possibilidade da coexistência de um puro devir de possibilidades, com um sentido unitário, uno, que a própria ideia de composição sempre traduziu ao longo da história da pintura.
O formato de canção como obra de arte, no contexto das artes plásticas, é encontrado como também sendo uma alternativa ao discurso de reflexão sobre arte. Não propriamente como ironia, explorando sobretudo as qualidades da ambiguidade enquanto possível instrumento de lucidez.

António Olaio, artista plástico, nascido em 1963, Sá da Bandeira, Angola. Vive em Coimbra. Professor no Curso de Arquitectura e no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Investigador do Centro de Estudos Sociais.
Das suas publicações são de salientar os livros “Ser um indivíduo chez Marcel Duchamp” e, sobre a sua obra, “I think differently, now that I can paint” (editado pelo Centro Cultural Vila Flor, Guimarães), “Brrrrain” (editado pela Culturgest, Lisboa) e “O artista é um readymade retificado” (João Pinharanda, editora Mimesis).
Exposições individuais mais recentes: 2012- Square feet, Sede do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra; 2011– This widow is blocking my Windows, Museu do Chiado, Lisboa ; Shall I vote for Elvis?, Teatro Municipal da Guarda ; 2010- La Prospettiva is sucking reality, Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira ; Na cátedra de S. Pedro, Museu Grão Vasco, Viseu ; 2009 – La prospettiva, Mario Mauroner, Viena ; Brrrrain, Culturgest, Lisboa ; Crying my brains out, Filomena Soares, Lisboa ; 2007 – I think differently now that I can paint, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães ; 2006 – Under the stars,  ZDB, Lisboa ; 2005 – Pictures are not movies, Filomena Soares, Lisboa ; 2004 – 40 years in a plane, Kenny Schachter conTEMPorary, Nova Iorque. I’m growing heads in my head, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra ; 2003 – You are what you eat, Centro Cultural Andratx, Palma de Maiorca, 2002 – Telepathic agriculture, Galerie Schuster, Berlin e Frankfurt ; 2001 – Foggy Days in Old Manhattan, Galeria Filomena Soares, Lisboa. Slow Motion, António Olaio, antologia da sua obra em vídeo, ESTGAD, Caldas da Rainha.
Participou em festivais de performance em Portugal, Alemanha, Holanda, França.
Foi um dos fundadores do grupo Repórter Estrábico com o qual editou o álbum Uno dos.
Com o músico João Taborda (António Olaio & João Taborda) editou o CD Loud Cloud pela Lux Records de Coimbra, 1996, o CD Sit on my soul, pela editora Nortesul, Março de 2000 e o CD Blaupunkt Blues pela Lux Records de Coimbra, 2007.

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Armadilhas, reloaded

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http://vimeo.com/57516636

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A antropologia da arte de Alfred Gell e para lá dela

Que relação – analógica, metafórica – é esta entre uma obra de arte e uma armadilha? A pergunta envia-nos imediatamente para o trabalho do antropólogo Alfred Gell (1945-1997). O percurso deste antropólogo poderá ser caracterizado por dois elementos que se explicitam de forma particularmente lúcida e feliz no livro póstumo de ensaios que é The art of anthropology_essays and diagrams (1999). Este volume reúne uma parte muito significativa da produção dispersa de Gell, e define de forma muito clara o seu entendimento do que pode ser a antropologia e do que pode ser, em particular, a antropologia da arte.
[…]
Quando eu me confronto com uma obra de arte, eu sei que se trata de um artefacto, eu sei que esse artefacto exige que eu tenha em consideração a intenção de um outro. O reconhecimento da agência não supõe o pleno acesso ao «interior» de uma mente. Eu sei que estou a lidar com esse lugar limítrofe onde transparência e opacidade se revelam indissociáveis, onde a recursividade entre o exterior e o interior se jogam, e onde o poder dos sortilégios é uma função desse jogo. Eu interrogo-me sobre o sentido da obra de arte e exerço uma forma de inferência não demonstrativa. É a «abducção» de que fala Gell. De outra forma ainda, eu passo a fazer parte de um feixe muito complexo de intencionalidades em que reconhecimento de psicologia intencional, simulação de estados mentais de outros, e abdução parecem convergir, revelando-se termos indecidíveis. Algo inclusivé impede ou bloqueia o meu percurso entre tais termos, pese embora o meu reconhecimento da sua operatividade. Um mundo armadilhado é um mundo que bloqueia – e pode bloquer fatalmente – a fluidez do meu percurso. É uma descontinuidade com um sentido paródico e talvez mortal. Um lugar de «suspensão», como Gell escreve admiravelmente:

«Every work of art that works is like this, a trap or a snare that impedes passage, and what is any art gallery but a place of capture, set with what [Pascal] Boyer calls “thought-traps”, which hold their victims for a time, in suspension?» (1999, p. 213).

Uma parte maior do que é arte poderá ter sido capturada por uma armadilha Zande, conclui Alfred Gell, e isto talvez seja apenas o início de um modo diverso de interrogar.

Em primeiro plano, uma armadilha Zande; retirado de Susan Vogel (ed.), Art / Artifact, 1988

Luís Quintais nasceu em 1968. É antropólogo e professor auxiliar junto do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. Como investigador está associado ao Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Universidade de Coimbra. Desenvolveu etnografia sobre guerra e memória traumática junto de ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas e investigação de arquivo sobre a emergência e a consolidação da psiquiatria forense portuguesa.
Trabalha actualmente sobre as implicações das ciências cognitivas recentes para a antropologia da arte. Desenvolveu também trabalho ensaístico sobre as relações entre arte e ciência, com especial referência para a designada bioarte, e sobre as relações entre literatura e antropologia.
Na Universidade de Coimbra, lecciona cadeiras sobre história e teoria da antropologia social e cultural, culturas visuais, literatura e antropologia, antropologia médica e antropologia cognitiva. O seu trabalho encontra-se publicado em revistas portuguesas e estrangeiras.
Destaque também para os livros Franz Piechowski ou a analítica do arquivo: ensaio sobre o visível e o invisível na psiquiatria forense portuguesa (Lisboa, Livros Cotovia, 2006), e As guerras coloniais portuguesas e a invenção da história (Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2000).
A sua tese de doutoramento sobre a emergência e a consolidação da psiquiatria forense será publicada dentro em breve pela Imprensa da Universidade de Coimbra com o título de Mestres da verdade invisível no arquivo da psiquiatria forense portuguesa.

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