A hibridez dos campos agrícolas do ribatejo como desafio para uma outra experiência da paisagem

emanuel

http://vimeo.com/57100175

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.

Reservatório de mutações é o projecto de um ensaio fotográfico sobre o processo de transformação contemporânea dos campos agrícolas no Ribatejo. Trata-se de uma pesquisa ainda em curso, que procura explorar através da fotografia o modo como as novas modelações do espaço agrícola, assim como as mudanças que aí ocorrem ao longo do tempo –dos ciclos agrícolas, dos anos-, abrem a um outro tipo de envolvimento com a paisagem.
A comunicação propõe: i) apresentar o projecto reservatório de mutações; ii) explicar porque é que uma abordagem cultural à paisagem não será operativa para compreender o contexto e a singularidade das novas manifestações daqueles campos agrícolas; iii)  explorar a paisagem mediante a síntese entre uma abordagem comparativa e um envolvimento fenomenológico com o espaço.
Os campos agrícolas do Ribatejo têm estado sujeitos a um processo de transformação radical, causada acima de tudo pela implementação das tecnologias agrícolas contemporâneas de: plasticulture –uso de materiais plásticos na agricultura-; e, sistemas de irrigação por aspersão, fixos ou rotativos -center pivot. Estas novas tecnologias implementam no campo agrícola um grau de artifício incomparável com as práticas agrícolas anteriores. Os campos agrícolas aparecem como um híbrido.
Ora, estas novas características híbridas introduzem um corte com a possibilidade de reconhecimento da paisagem de acordo com as referências culturais estabelecidas: no campo não existem campinos, a presença do gado na lezíria é rara;  as cheias são já esporádicas –devido aos transvases no Tejo-; a vinha, uma das características paradigmáticas da região, tem sido arrancada, com um impacto acrescido entre 2008 e 2011, devido à implementação da Reforma da Organização Comum do Sector Vitivinícola.
Por outro lado, a mudança para a exploração de culturas de regadio, que vêm substituir a vinha, acarreta dois tipos de riscos ambientais: recurso excessivo da única água disponível, proveniente de lençóis freáticos;  contaminação química dos solos e desses mesmos recursos hídricos.
Face ao corte que as novas características híbridas dos campos introduzem do ponto de vista cultural, face aos riscos ambientais associados aquelas novas tecnologias, como explicar a atracção visual que as modelações causadas por aquelas tecnologias suscitam? De que modo é que essa atracção poderá suscitar uma outra poética da paisagem? Eis as problemáticas que a pesquisa fotográfica reservatório de mutações explora.

Emanuel Brás nasceu em 1967, em Coimbra. É fotógrafo. Começou a expor individualmente em 1997. Desde 1999, com a exposição individual Paisagens das lagoas de Vela e Braças: fotografia in situ, o seu trabalho tem vindo progressivamente a focar-se sobre as problemáticas da paisagem no espaço contemporâneo. Das exposições individuais que tem apresentado pode ainda destacar-se: reservatório de mutações, no Museu do Neo-Realismo 2012;  lugares de afecção, nos Encontros da Imagem de 2010: Transmutações da Paisagem (Braga) e no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, 2009; Laboratório Chimico. memória do lugar, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, em 2006; apresentou uma intervenção na fachada do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, inserida no Festival Luzboa, 2004; Ralo no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, e da experiência do lugar à paisagem- fotografia in situ, em Marvila, Lisboa, ambas em 2003.

O seu trabalho está representado em várias colecções nacionais: BESart, Colecção Nacional de Fotografia/ Centro Português de fotografia, Fundação PLMJ; Encontros da Imagem, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.
Lecciona na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Está a desenvolver um projecto de doutoramento no Research Centre for Land/Water and the Visual Arts, Universidade de Plymouth, Reino Unido. Mestrado em Imagem e Comunicação, no Goldsmiths College, Londres, em 2000. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra, em 1997.

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