Aldeias do Interior de Portugal: um estudo sobre desertificação humana e do território

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https://vimeo.com/59003064

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O Meu País Através dos Teus Olhos & O Mural do Povo

A segunda metade do século XX trouxe uma profunda transformação para a organização dos territórios rurais portugueses, principalmente a partir de 1986, ano em que Portugal e a Espanha entraram na União Europeia. As áreas mais afectadas foram Idanha-a-Nova e municípios vizinhos que formam a Raia, na fronteira com a Espanha, uma vez que as suas economias eram sustentadas pela agricultura e pecuária. A Política Agrícola Comum (PAC) introduziu um novo plano de organização para campos/produtos agrícolas e a forma como estes produtos podiam ser comercializados dentro da União Europeia. Na década de oitenta, a agricultura em Portugal era ainda bastante rudimentar, em comparação com outros países europeus. A falta de uma estratégia interna para replanificar este sector, responsável pela maior contribuição para o PIB, levou ao empobrecimento dos campos e do povo do interior, sendo essencialmente os idosos que permanecem e dão continuidade às tradições.

O trabalho de investigação de Cristina Rodrigues surgiu da sua profunda reflexão sobre esta dura realidade. A maioria dos habitantes de Idanha-a-Nova tem uma idade mínima de 65 anos, e são eles que preservam algumas das tradições mais antigas de Portugal. Acreditando ser crucial gravar e documentar as manifestações culturais deste povo de forma a evitar um genocídio cultural, Cristina Rodrigues propôs-se criar o «Museu Rural do Século XXI», uma exposição itinerante que leva a cultura rural a grandes centros urbanos em países que atravessam processos semelhantes de despovoamento e desertificação. Este museu leva a voz destas gerações aos centros urbanos, frenéticos e intensamente populados.

Desde 2009 que tem viajado regularmente para várias aldeias e povoações no interior de Portugal. Nestas visitas, arquitecta faz uso da fotografia como uma das suas principais ferramentas de trabalho para capturar momentos do dia-a-dia e acontecimentos destas pessoas. A sua colecção de fotos intitulada «O Meu País Através dos Teus Olhos» e a instalação de fotos intitulada «O Mural do Povo» foram incluídas no «Museu Rural do Século XXI» e ilustram o desequilíbrio demográfico e o seu impacto na economia e ambiente portugueses.

Segundo Cristina Rodrigues: «da mesma forma que o corpo humano necessita de equilíbrio para se manter saudável, um território necessita de equilíbrio na sua distribuição populacional para prosperar.»

Cristina Rodrigues é arquitecta, curadora e doutoranda no MIRIAD – Manchester Institute for Research and Innovation in Art & Design, e é também responsável por dois projectos de investigação, intitulados «Vilas no Interior de Portugal» e «Design contra Desertificação», os quais fundou enquanto directora da sua firma CR Architects, e os quais desenvolve agora em parceria com MIRIAD, MSA – Manchester School of Architecture, School of Landscape Architecture, os Municípios de Penela e de Idanha-a-Nova e ainda UNESCO Geopark Naturtejo.

Em 2009 fundou CR Architects em Portugal, firma de arquitectura, design e planeamento sustentável com o objectivo de oferecer soluções de planeamento e arquitectura sustentáveis. Usando apenas materiais e mão-de-obra local, a sua firma visa melhorar e contribuir para o desenvolvimento de economias locais.

Os projectos arquitectónicos de Cristina Rodrigues revelam uma influência profunda do património e cultura locais bem como de técnicas de construção tradicionais, pois na opinião da arquitecta são a base sobre a qual se promove o respeito pelo património natural e arquitectónico de um local.

O seu trabalho de investigação tem como ponto fulcral formas novas e sustentáveis de arquitectura que poderão auxiliar no combate à desertificação humana e territorial, num mundo em processo acelerado de globalização. A Desertificação Humana é um problema que tem afectado todo o interior de Portugal, com um impacto negativo nas economias locais e no ambiente, o que é partilhado por vários países do sul da Europa.

A partir de 2011 o seu projecto de investigação «Design contra Desertificação» foi alargado para incluir Idanha-a-Nova e está a ser projectado um modelo de desenvolvimento que inclui a participação de arquitectos, arquitectos paisagistas e profissionais de outras áreas, incluindo Turismo & Gestão, com o objectivo de melhorar as economias locais e a qualidade de vida das zonas rurais.

Cristina Rodrigues é ainda a autora e curadora da exposição itinerante intitulada «Museu Rural do Século XXI», criada para dar resposta aos problemas da desertificação, despovoamento e declínio económico, usando Idanha-a-Nova como caso estudo. A sua visão é a de criar regeneração rural através do envolvimento de artistas, designers e escritores num projecto de colaboração que poderá vir a ter um verdadeiro impacto nas zonas rurais.

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