REDISCUTINDO A NATUREZA DA PERCEPÇÃO

Eadweard Muybridge

Um ponto de partida fundamental para compreender os trânsitos entre corpo e ambiente é o estudo da percepção: o princípio de toda e qualquer experiência.

Ao contrário do que parecia consensual há alguns anos, a percepção não é apenas uma interpretação de mensagens sensoriais, mas uma simulação interna da ação, assim como, uma antecipação das conseqüências da ação.

Segundo Alain Berthoz, uma das primeiras tentativas para testar esta hipótese foi realizada em 1852 por Hermann Lotze que propunha a organização espacial das sensações visuais como resultante da sua integração com o sentido muscular. William James também descreveu, em 1890, um circuito neuronal que antecipava as consequências sensoriais do movimento. Assim, para os atos perceptivos haveria um ponto de partida determinado por um objeto complexo (a presa por exemplo) mas a representação organizada internamente pelo organismo não se restringiria a esta relação circunstancial. Isso significa que o ato perceptivo poderia prever também o que ainda não havia ocorrido. Assim, depois da simulação inicial haveria uma espécie de adaptação a estimulações futuras passíveis de serem caracterizadas por conduções perceptivas. Era preciso, portanto, suprimir a dissociação entre percepção e ação. Com base nestes estudos, Berthoz propôs o entendimento da percepção como uma ação simulada e o movimento como o nosso sexto sentido. É disso que se trata, provavelmente, a improvisação em dança: de uma aliança entre percepção e ação que aciona um fenômeno perceptivo-imaginativo e que já na ação presente prevê a ação futura.

Entre cientistas, filósofos e historiadores da arte há um consenso no sentido de reconhecer o método fenomenógico como estratégia importante para o reconhecimento do papel do corpo na relação com o outro e como princípio da experiência. No entanto, é preciso notar que, mesmo dentro da fenomenologia, há diferentes vertentes. O pioneiro Husserl entendeu “fenômeno” a partir da história imanente da consciência, enquanto Merleau-Ponty optou por partir da encarnação corporal e intersubjetiva, como uma situação histórica.

Não há dúvida de que a afirmação de Merleau Ponty de que toda teoria do corpo já é uma teoria da percepção, continua fundamental. No entanto, as explicações radicalizaram-se na medida em que mudou a noção de tempo. Assim, tornou-se plausível afirmar hoje que perceber já é um modo de agir. Alva Noë (2004) tem esclarecido que a percepção não é algo que acontece para nós ou em nós. É algo que fazemos. O que percebemos é determinado pelo que fazemos, pelo que sabemos como fazer ou estamos prontos para fazer. Essas ações são sutilmente diferentes entre si, mas intimamente relacionadas.

Perceber é testar implicitamente os efeitos do movimento na estimulação sensória. A afirmação mais central e importante de Noë é que existe uma ação enativa1 que seria a própria habilidade para perceber, sendo que esta não é apenas dependente mas constituída pelo fato de termos um certo tipo de conhecimento sensóriomotor. Isso significa que apenas criaturas com certas habilidades corporais podem ser percebedoras do tipo que somos. O movimento próprio depende dos modos de percepção da consciência. Mas a propriocepção e a auto-consciência perspectiva são habilidades que nos relacionam não apenas com o próprio organismo mas com o entorno.

Outro aspecto importante da abordagem enativa é a rejeição à idéia de que a percepção seja um processo que acontece no cérebro onde o sistema perceptual constrói uma representação interna do mundo. Sem dúvida, a percepção depende do que acontece no cérebro que organiza ininterruptamente um fluxo de representações internas ou imagens mentais. No entanto, é importante notar que a percepção não é um processo que se concentra exclusivamente aí. É uma espécie de atividade no animal como um todo.

Esta explicação é bastante distinta de outras como a de Susan Hurley que propôs em 1998, uma relação entre percepção e ação, do tipo input e out put. A sua hipótese foi muito bem aceita e até hoje é bastante reconhecida. Para Hurley, a percepção seria um estímulo do mundo para a mente e a ação um estímulo da mente para o mundo. Neste caso, o pensamento seria compreendido como um processo de mediação.

Noë considera este divórcio entre percepção e ação perigoso e inadequado. Segundo ele, o pensamento não pode ser considerado uma mediação entre uma coisa e outra. A percepção é intrinsicamente um pensamento, um fluxo de imagens. A base da percepção é um conhecimento prático dos modos como o movimento aciona mudanças na estimulação. Quando se coloca um óculos ou lentes distorcidas, por exemplo, os padrões de dependência entre movimento e estimulação são alterados. Os movimentos dos olhos e da cabeça originam mudanças antecipadas na estimulação sensória e o resultado não é “ver diferente”, mas falhar em ver. Criam-se lacunas entre a percepção da visão e a ação e por isso não se pode ver.

Muitos dos importantes cientistas que estudaram a visão e a percepção, argumentaram que os seres vivos constróem um modelo interno para perceber o mundo. Noë afirma que a visão não é um processo através do qual o cérebro constrói um modelo interno detalhado de representação. Isso não significa que não exista nenhuma representação, mas que a noção de representação precisa ser reconsiderada. Ele dá o exemplo do turista que está em uma cidade estranha e quer ir a um castelo. A primeira opção seria comprar um mapa e seguir o passo a passo até chegar ao local desejado. A segunda opção seria aquela em que de onde se está já é possível ver o castelo. Neste caso, não há mapa mas o turista segue intuitivamente as pistas que descobre pelo caminho até chegar ao castelo. A visão (e a percepção em geral) seria mais como o segundo caso. Não existe necessariamente um mapa, dado a priori, mas intuímos como seguir as pistas.

Perceber, portanto, não é apenas ter uma sensação ou receber impressões sensórias, mas ter sensações que alguém entende. Isso implica em compreender melhor o que significa este “alguém entende” e o que é “entendimento conceitual”.

Também não há nenhuma unanimidade neste campo. Ao contrário, trata-se de um tema bastante polêmico que precisa ser estudado com cuidado. Para Noë, diferentemente de outros autores, a base de entendimento é sempre conceitual. Esta hipótese é bastante peculiar porque implica no reconhecimento de que grande parte do conteúdo perceptual já é conceitual quando, de modo geral, admite-se que formular um conceito implica em ser capaz de fazer julgamentos, o que corresponderia a uma etapa posterior.

Os julgamentos sempre buscam algum tipo de verdade e as leis da verdade são normalmente consideradas leis lógicas. Para compreendê-las é preciso chegar perto da distinção entre o modo como as coisas são e o modo como parecem ser. Tanto humanos como seres de natureza não linguistica percebem, embora estes últimos não sejam, em sua maioria, capazes de realizar práticas intelectuais. Noë admite que outros animais e bebês humanos percebem mas não precisam de conceitos para perceber. Isto é importante para entendermos que ele não está dizendo que é tudo a mesma coisa. Há uma diferença entre perceber, conceituar e julgar, no entanto, o que Noë esclarece é que estas diferenças não são as mesmas evocadas pelo senso comum. A percepção não é algo que antecede a conceituação, ela já é cognitiva no sentido de que é uma habilidade sensoriomotora da qual emergem proto-conceitos. Algumas vezes precisamos de categorias para perceber, mas não temos conceitos individuais acerca da percepção. Noë propõe que a habilidade sensoriomotora é, ela mesma, uma habilidade conceitual. O movimento seria, neste sentido, basicamente cognitivo porque o modo como compreendemos como as coisas acontecem é sempre em termos sensoriomotores. Assim também representamos as propriedades que nos são dadas. Perceber já é um modo de pensar sobre o mundo ou, em outras palavras, toda experiência, mesmo sem se configurar como um julgamento, é pensável. Ter uma experiência, assim como improvisar, é ser confrontado com um modo possível do mundo. O conteúdo da experiência e o conteúdo do pensamento, em muitos sentidos, são os mesmos. A ignição está no movimento.

Tais estudos podem abrir novos caminhos para reconhecermos o que é uma arte conceitual e de que maneira o conhecimento pode ser articulado para além das práticas discursivas.

Christine Greiner

1 . A enação proposta por Francisco Varela e outros é uma crítica ao cognitivismo clássico, uma vez que não reconhece representações pré-determinadas adequadas a mundo exterior. Ao invés disso, trata-se de representações que emergem de situações específicas. Do corpo em movimento.

Bibliografia

Berthoz Alain Le sens du mouvement. Paris: Odile Jacob, 2001

Berthoz Alain La Décision. Paris: Odile Jacob, 2003.

James William The principles of psichology, 2 vols. New York: Dover, 1890/1950.

Nöe Alva Action in Perception. Cambridge: MIT Press, 2004.

 

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