Realidade Aumentada

Ao primeiro segundo o olho da câmara revela o espaço da sala e dos objetos da sala. No segundo seguinte o olho da câmara revela-se como extensão da câmara do olho. O ato de ver e o registo do ato de ver encenam a coincidência entre olhos, óculos e câmara. Invisibilizando-se e invisibilizando as diferenças entre si, aumentam o real sujeitando os sentidos à grelha simbólica de ordenação do espaço e do tempo. A perceção subjetiva do mundo objetiva-se na externalidade da inscrição e transmissão automática de uma rede de sinais de luz e de som, de fotões e eletrões. As costas das minhas mãos com os dedos cruzados oferecem-se aos óculos-câmara diante dos olhos. A luz já alta da manhã marca com um traço diagonal na parede a projeção do limite superior da janela que está fora do enquadramento. A mesma luz que jorra sobre as linhas de um banco alto, e parece torná-lo num contorno abstrato à espera de ser preenchido, pinta de branco o assento do sofá azul que delimita o espaço à minha direita. Em frente, ao fundo, imediatamente a seguir ao plano da parede, um monitor negro de grande formato, sobre um móvel branco, com portas de correr. A gradação da intensidade da luz na tonalidade das pranchas de madeira do chão dá a ver o modo como as ondas de luz redesenham o espaço em que estou. À esquerda, uma mancha escura deixa entrever a continuação do apartamento, com uma porta e um pequeno corredor que se estendem para o fundo, em direção a um outro ponto de luz refletido na parede. Num plano mais aproximado, ligeiramente descentrado, quase a meio da distância entre mim e a parede, um pequeno manequim ou estatueta de madeira. Reminiscente de um brinquedo articulado. Mais próximo ainda, descentrado à direita, o monitor de um computador portátil, casualmente aberto numa página web, está sobre a mesa azul imediatamente à minha frente. No tampo dessa mesa são ainda visíveis, na área que o primeiro plano das minhas mãos não cobre, uma revista e os telecomandos do monitor de televisão. Estico os braços, espreguiçando-me e o movimento da câmara, que está colocada ao nível dos meus olhos, responde à rotação para trás do pescoço e da cabeça à medida que os braços se erguem. Rodando em sentido inverso a minha câmara-cabeça dá-me a ver as minhas pernas-câmara e os meus pés-câmara. A interface gráfica surge suspensa diante de mim, como uma película que se interpusesse entre a realidade do meu olhar e a realidade das coisas além dele. O menu contém 14 ícones diferentes que oferecem outras tantas possibilidades de conexão e interação com as bases de dados e com as redes de telecomunicação: data, transmissão áudio, rede social, hora, conversação síncrona, câmara fotográfica e vídeo, auscultadores, pesquisa, transmissão vídeo, correio eletrónico. A seguir estou na cozinha, o braço-câmara esquerdo segura a chávena enquanto o direito inclina a cafeteira para servir o café. Isto é feito sobre o cenário das quatro bocas do fogão de cozinha, em vista aérea. O negro das grelhas de ferro em contraste com o branco do tampo do fogão. Ao beber o café o movimento da câmara-cabeça fixa o olhar no cimo de um dos cantos da parede junto ao móvel da cozinha. No mostrador dos olhos leio a hora, a temperatura e a agenda do dia. Um encontro com Jess às 18 e 30. Nova rotação para baixo em direção à chávena quase vazia, reenquadrando o fogão e o chão. O travelling da cabeça muda para a vista da janela. A estrada quase deserta, em primeiro plano, com as guias e as setas e as marcações das passadeiras. Vários carros estacionados, em segundo plano. Uma urbanização de prédios altos num terceiro plano, delimitando o horizonte visível desde aqui. Rodo a cabeça-câmara para cima e para a esquerda, em direção ao céu azul contra o qual se recorta a massa dos edifícios acastanhados. Há 10% de probabilidade de chuva, céu temporariamente nublado, temperatura de 14 graus. Novo plano: sentado à mesa a minha cabeça-câmara come uma sandes mista. O pão, preso entre as minhas duas mãos, afasta-se da boca voraz da câmara. Vejo-me a ver-me a comer quando Paul, no canto superior direito do mundo, me pergunta se quero encontrar-me com ele hoje. O texto voa para o centro do ecrã dos meus olhos. Respondo que sim, usando a função de processamento de voz que transcreve a minha mensagem e a envia. Vai ter comigo em frente à livraria às duas. Nova dentada no pão. A câmara-mão diz-me que agarro na mochila e nas chaves de casa e corta para a porta da rua fazendo-me sair do bloco de apartamentos. A câmara-pernas diz-me que atravesso a estrada e me dirijo ao metro. Um aviso no ecrã da cabeça diz-me que está suspenso o serviço de metro e indica-me qual o percurso a pé para o meu destino. O mapa desenha-se automaticamente e o GPS traduz as coordenadas em nomes de ruas e indicações de direção. Sigo em frente, em direção à rua 17. Viro à esquerda. Atravesso a rua. Continuo em frente. Na praça do parque a câmara-mão faz festas a um cão entre outros dois que a dona traz pela trela. Atravesso a rua de novo. Viro à direita, em direção à Rua 16 Lado Nascente. Monsieur Gayno Ao Vivo a 5 de Maio de 2012. Lembra-me que tenho de comprar os bilhetes esta noite. Mensagem de voz para a minha agenda. Chego à livraria. Onde fica a secção de música? O mostrador gera o mapa da loja. Seguir em frente. Virar à esquerda. Escolho um livro. As minhas mãos-câmara percorrem as lombadas na estante e escolhem Ukulele in a Day, de Alexander Chen. Caminho entre as bancas de livros em direção à caixa. O Paul já chegou? Entra a mensagem com a sua localização, a 120 metros da livraria. Saio da livraria e encontro-o na berma do passeio, quase diante da porta da livraria, a andar na minha direção. Saudamo-nos. A minha mão-câmara ergue-se para tocar na dele. Então, puto, como é que vai isso? Paul volta-se para a sua direita e aponta para a rua. Queres experimentar aquele sítio de que te falei? Claro. Caminhamos em direção à lanchonete. É muito boa. Reparo em dois autocarros que circulam por trás da carrinha cor-de-laranja estacionada. Reparo numa bicicleta presa ao poste sobre o passeio. Espera um segundo. Os meus olhos-câmara transmitem a localização do vendedor. Praça Astor, entre a 4ª Avenida e 8ª Rua. Ligo-me à rede G+ para avaliar este vendedor. Sinal positivo. A cabeça roda em direção ao balcão da carrinha e depois em direção ao copo de café. Damos mais alguns passos. Até logo, puto. Erguemos os braços em sinal de despedida. Atravesso a rua e sigo em sentido oposto. Paro por instantes. A minha cabeça-câmara fixa-se, à esquerda, numa pintura sobre uma porta entre paredes grafitadas e com de restos de cartazes. Tira uma foto disto. Os olhos-câmara respondem à injunção da voz e enquadram a porta e as paredes a fotografar. Procura os meus círculos. A imagem é instantaneamente partilhada nas minhas redes de amigos. O corpo-câmara roda de novo em direção à rua e continua a caminhar, fixando por momentos o pavimento do passeio. Já mais adiante recebo no canto direito do meu campo de visão a chamada da Jess. Estou atrasado. Subo um lance de escadas no terraço de um edifício. O ponto de encontro que escolhi. Música, para! A Jessica quer falar contigo. Aceitar. Entra a videochamada. Abre-se uma janela com o rosto dela no quadrante inferior do meu campo de visão. Que andas a fazer? Hei! Hei! Queres ver uma coisa fixe? Claro. Ativar a minha videotransmissão. Partilhar a minha vista. Primeiras notas e um plano picado sobre o instrumento que tenho nas mãos. Tens um ukulele? Sim. Escuta agora. A cabeça-câmara roda para cima enquadrando os prédios da cidade vistos de cima. A cidade-câmara estende-se à minha frente e à minha esquerda. Atrás da grande mancha espelhada de água cinzenta em segundo plano, uma nova linha de edifícios mostra a cidade a perder-se de vista em direção ao horizonte. Na linha do ecrã do céu no horizonte, o intenso amarelo torrado mostra que o disco do sol já se escondeu. Mais acima, as nuvens são manchas esbranquiçadas com sombras azuis e cinzentas por baixo, coando as réstias de luz na sua massa tardia a indistinguir-se. A grua da cabeça sobe ainda um pouco mais em direção ao céu. O microfone incorporado continua a transmitir-me. O rosto sorridente da Jess na janela do céu acompanha esse movimento objetivo do meu olho-câmara. É belo, diz ela. Fade out. Cortar para fundo branco com o URL do projeto. Ouvem-se ainda por instantes o som do riso de Jess misturado com as notas do ukulele.

Manuel Portela

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