Coimbra, século deposto

Para Pedro Paixão

Lembro-me dele à procura de Inez
na cidade pequena
de província,

tão solene, tão sem princípios.
Guiava furiosamente,
precipitamente

no encalço de Inez:
«Vamos à vida, porque a morte
é certa, meu querido amigo».

Melhor seria esse fim,
o da escrita, como se testemunhasse
os últimos dias na terra

e quisesse ainda habitar a alegria
de poder contá-los.
Hoje, tantos anos depois, a sua voz

estala como lenha no Inverno
e sacode-me
como música esquecida,

violência onde se sonha
toda a história, a que passa por nós,
a que sem bagagem nos levará

até à desmedida fronteira.
Vociferam os deuses no descampado,
cresce a erva, agonizam metais e sombras.

Vivemos depois do fim
e continuamos à procura de Inez,
os dois, como se algo nos teimasse

em fugir e guiássemos, ambos,
furiosamente, precipitamente
para lá, até lá.

Haverá ainda música para nós
e a música será o lugar do justo e do bom,
o início improvável que aqui nos trouxe.

Luís Quintais, 30. 04. 2012

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