MILPLANALTOS, UM ANO DEPOIS

Um ano depois de termos criado Milplanaltos, descobrimos, não sem algum assombro, que o nosso desafio se tem vindo a cumprir: conseguimos mobilizar todo um conjunto de investigadores e criadores que trabalham na fronteira, isto é, cujo trabalho não pode ser subsumido a uma lógica disciplinar ou a uma axiologia. Pessoas como Manuel Portela, Pedro Eiras, Ernesto Costa, Marta de Menezes, Porfírio Silva, António Sousa Ribeiro, entre outros nomes, não parecem particularmente interessados em habitar uma zona de conforto qualquer do pensamento contemporâneo, e mostram-nos como pensar é, sugerem-nos Gilles Deleuze e Félix Guattari no seu magnífico tool kit do pensar e do experimentar que é Mille Plateaux, desterritorializar, implementar uma espécie de máquina de desmontagem do óbvio e do obtuso. Pensar e experimentar (termos que aqui se nos afiguram permutáveis) deslocam-nos e surpreendem-nos. Fazem-nos também perceber como precisamos, em tempos que parecem comprazer-se com a esterilidade e com a melancolia, de talentos projectivos que nos conduzam ao novo, mesmo que esse novo reclame uma revisão do que existiu e existe. Depois há a dimensão pública e política do que se faz (na academia e fora dela). É isso também Milplanaltos: um espaço que pretende trazer à cultura contemporânea em sentido amplo tudo aquilo que poderá ainda refundar o mundo. Um espaço de experimentação, diálogo e incerteza também. É bom enaltecer a incerteza, a indeterminação e o ruído, como tropos que reivindicam a possibilidade de criação e de refundação do mundo. Foi isso a que nos propusemos. E assim continuará a ser. Uma constelação de propostas que vão da inteligência artificial às humanidades, passando pela arquitectura e pelas artes visuais, aproximando e ligando matemática a poesia, filosofia política a ciência cognitiva, literatura a cinema, culturas digitais a inusitadas formas de escrita. Tudo nos interessou e tudo nos interessa, desde que revele essa transposição de domínios que Deleuze enuncia:

É como os pássaros de Mozart: há um devir-pássaro nessa música, mas apanhado num devir-música do pássaro, os dois formando um único devir, um só bloco, uma evolução a-paralela, de modo nenhum uma troca, mas «uma confidência sem interlocutor possível», como diz um comentador de Mozart – em resumo, uma conversa (Gilles Deleuze e Claire Parnet, Diálogos, p. 13).

É isso Milplanaltos: uma conversa.

Neste primeiro aniversário, vamos publicar os Cadernos Milplanaltos. Estes Cadernos são uma extensão do nosso projecto. Dois títulos: Um Dia Feito de Vidro (de Manuel Portela) e Os Ícones de Andrei. Quatro diálogos com Tarkovsky (de Pedro Eiras). O lançamento e a celebração estão agendados para o próximo dia 10 de Abril às 18. 30 h no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), piso térreo da Casa Municipal da Cultura, Parque de Santa Cruz. Os Cadernos de Manuel Portela e de Pedro Eiras serão apresentados por Abílio Hernandez Cardoso, alguém que pensa numa fronteira entre o cinema e a literatura que ele próprio criou.

Milpanaltos é uma actividade do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), com a parceria do Museu da Ciência, da Casa da Escrita e, agora também, do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC).

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.

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