O PEIXE BINÁRIO


Passo a transcrever um excerto de Claude Lévi-Strauss, capítulo 2 de Mito e Significado, originalmente publicado em inglês (Myth and meaning, 1987), resultado de uma série de palestras radiofónicas para o grande público. Existe em português, nas Edições 70, donde transcrevo. Os destaques são meus e têm a ver com o comentário que quero deixar depois.

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«Vamos agora considerar um mito do Canadá Ocidental sobre uma raia que tentou controlar ou dominar o Vento Sul e que teve êxito na empresa. Trata-se de uma história de uma época anterior à existência do Homem na Terra, ou seja, de um tempo em que os homens não se diferenciavam de facto dos animais; os seres eram meio humanos e meio animais. Todos se sentiam muito incomodados com o vento, porque os ventos, especialmente os ventos maus, sopravam durante todo o tempo, impedindo que eles pescassem ou que procurassem conchas com moluscos na praia. Portanto, decidiram que tinham de lutar contra os ventos, obrigando-os a comportarem-se mais decentemente. Houve uma expedição em que participaram vários animais humanizados ou humanos animalizados, incluindo a raia, que desempenhou um importante papel na captura do Vento Sul. Este só foi libertado depois de prometer que não voltaria a soprar constantemente, mas só de vez em quando, ou só em determinados períodos. Desde então, o Vento Sul só sopra em certos períodos do ano ou, então, uma única vez em cada dois dias; durante o resto do tempo a Humanidade pode dedicar-se às suas actividades.

Bom, esta história nunca aconteceu na realidade. Mas a nossa posição não se pode limitar a considerarmos esta história completamente absurda e a ficarmos satisfeitos ao taxá-la de uma criação imaginosa de uma mente entregue ao delírio. Temos de a tomar a sério e fazer a seguinte pergunta: porquê a raia e porquê o Vento Sul?

Quando se estuda minuciosamente o material mitológico na forma exacta em que é narrado, verifica-se que a raia actua com base em determinadas características, que são de duas espécies. A primeira, é que a raia é um peixe, como todos os seus congéneres espalmados, escorregadio por baixo e duro por cima. E a outra característica, que permite à raia escapar com sucesso quando tem de enfrentar outros animais, é que parece muito grande vista de baixo ou de cima e extremamente delgada vista de lado. Um adversário poderia pensar que seria muito fácil disparar uma seta e matar uma raia, por ela ser tão grande; mas, enquanto a seta se dirige para o alvo, a raia pode virar-se ou deslizar rapidamente, oferecendo apenas o perfil, que, evidentemente, é impossível de atingir; e é assim que pode escapar. Portanto, a razão por que se escolheu a raia é que ela é um animal que, considerado de um ou outro ponto de vista, é capaz de responder – empregando a linguagem da cibernética – em termos de «sim» ou «não». É capaz de dois estados que são descontínuos, um positivo e o outro negativo. A função que a raia desempenha no mito é – ainda que, evidentemente, eu não queira levar as semelhanças demasiado longe – parecida com a dos elementos que se introduzem nos computadores modernos e que se podem utilizar para resolver grandes problemas adicionando uma série de respostas de «sim» e «não».

Apesar de ser obviamente errado e impossível (dum ponto de vista empírico) que um peixe possa lutar contra o vento, dum ponto de vista lógico pode-se compreender por que razão se utilizam imagens tiradas da experiência. Esta é a originalidade do pensamento mitológico – desempenhar o papel do pensamento conceptual: um animal susceptível de ser usado como, diria eu, um operador binário, pode ter, dum ponto de vista lógico, uma relação com um problema que também é um problema binário. Se o Vento Sul sopra todos os dias do ano, a vida torna-se impossível para a Humanidade. Mas, se apenas soprar um em cada dois dias – «sim» um dia, «não» o outro dia, e assim por diante –, torna-se então possível uma espécie de compromisso entre as necessidades da Humanidade e as condições predominantes no mundo natural.

Assim, dum ponto de vista lógico, há uma afinidade entre um animal como a raia e o tipo de problema que o mito tenta resolver. Dum ponto de vista científico, a história não é verdadeira, mas nós somente pudemos entender esta propriedade do mito num tempo em que a cibernética e os computadores apareceram no mundo científico, dando-nos o conhecimento das operações binárias, que já tinham sido postas em prática de uma maneira bastante diferente, com objectos ou seres concretos, pelo pensamento mítico. Assim, na realidade não existe uma espécie de divórcio entre mitologia e ciência. Só o estádio contemporâneo do pensamento científico é que nos habilita a compreender o que há neste mito, perante o qual permanecíamos completamente cegos antes de a ideia das operações binárias se tornar um conceito familiar para todos

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Este texto é um excelente exemplo da penetração do pensamento cibernético na cultura intelectual da segunda metade do século XX. Impulsionado pelo fascínio do computador, o Autor pode ver um animal como um operador binário – e, mais ainda, pode ver que isso foi visto de forma mitológica antes de haver computadores ou de eles terem sido concebidos logicamente. O mundo como uma grande máquina, onde as conexões são “portas lógicas” e a arquitectura geral é uma rede de ligações – numa visão que só está ao alcance de quem tenha visto a luz da concepção computacional (e não de qualquer computador, apenas do computador que venceu a batalha tecnológica, o computador digital que afastou o computador analógico).

É curioso que o Autor não tem dificuldade em reduzir um fenómeno como o vento que sopra, que nos parece contínuo na sua variação, a um problema discreto (sim ou não, sopra ou não sopra). Para se adequar melhor à natureza do controlador, ou do interruptor, o peixe: o peixe binário. Trata-se, afinal, de escolher um ponto de vista. Tal como a circulação sanguínea: é contínua ou discreta? No coração, parece ser discreta: cada bombada, um evento circulatório; na extrema periferia, nos vasos capilares, uma circulação contínua. O contínuo e o discreto não se opõem absolutamente, na natureza; pode ser mais uma questão de grau, ou de escala, de “zoom”, do que uma questão de determinação essencial. Só que, num computador (que é, contrariamente ao que muitos parecem pensar, uma máquina rara no mundo) essa oposição extrema-se: todo o controlo tem, no coração da máquina, de passar pelo carácter discreto (sim ou não, sem ambiguidade, sem meio termo) da corrente eléctrica que passa ou não passa por uma determinada porta lógica (ou melhor, que passa abaixo ou acima de um dado limiar). Nada, ou quase nada, na natureza é assim; praticamente qualquer sistema na natureza está cheio de gradientes, variações contínuas, múltiplas combinações de subtilezas. Ver o peixe como binário consegue, contudo, reduzir todo um imaginário à operação do discreto.

Para o famoso antropólogo, a raia e o Vento do Sul eram peças da grande máquina do mundo. Foi um sinal dos tempos. Esses tempos, realmente, não passaram.

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