O mundo em reverso ou Time’s Arrow de Martin Amis

christian boltanski . autel de lycée chases [furnace bridge of chases high school], 1986 – 1987

A estrutura narrativa do romance de Martin Amis, Time’s Arrow or The Nature of the Offense (1992) é desenvolvida a partir da possibilidade de um tempo em reverso e através de uma personagem sem memória (Tod Friendly), que mais tarde se revela ser uma figura que colaborou com os nazis no campo de extermínio de Auschwitz. Esta narrativa parece prestar-se à reflexão no contexto dos actuais debates dentro da História, da sua ligação com os estudos sobre a memória e do Holocausto como evento de um passado qui ne passe pas.

Em Time’s Arrow a seta do tempo encontra-se invertida. O narrador não possui memória mas tem consciência de que as coisas acontecem de forma contra-intuitiva: as pessoas devolvem os alimentos nos supermercados, as conversações iniciam-se com um “adeus”, e os relacionamentos amorosos começam turbulentamente até ao seu prosseguimento mais calmo e romântico. Não só a temporalidade narrativa do romance é invertida como se dá a inversão de inúmeros detalhes físicos: tremores de terra constroem casas, gotas de água regressam do solo até às nuvens, as pessoas andam para trás e alimentam-se regurgitando a comida.

À medida que vamos lendo o romance apercebemo-nos que o verdadeiro nome de Tod Friendly é Odilo Unverdorben. Este terá sido membro das unidades Einsatzgruppen, o esquadrão de morte que seguia a Wehrmacht na sua missão de conquista da Europa de Leste e nos territórios da então União Soviética, e que tinha como missão matar preferencialmente civis judeus. Unverdorben corresponde ao arquétipo do perpetrador nazi, tendo inclusive participado no programa de eutanásia do pré-guerra. No centro da história encontramos Odilo em Auschwitz, onde finalmente o mundo começa a fazer sentido, no capítulo intitulado “Here there is no why”1.

Através da narrativa em reverso, Amis parece evocar o irrepresentável de Auschwitz apelando à sua representação em negativo. Assim, Auschwitz só faz sentido num tempo e num mundo de “pernas para o ar”. Tal como o “slogan” “Arbeit Macht Frei” só faz sentido num mundo em reverso. Um mundo invertido, como um negativo fotográfico. O reverso em simultâneo da cronologia e da causalidade reverte a questão da moralidade nazi.

Embora Time’s Arrow coloque o seu personagem numa viagem até ao passado, esta é uma história ligada ao presente e à própria ideia de modernidade. Amis faz cumprir assim uma espécie de “wishful-thinking” ao voltar atrás no tempo e refazer o passado, o que parece exigir uma releitura, também ela invertida, daquela que Walter Benjamin fez da pintura de Paul Klee, “Angelus Novus” (Horowitz, 1997). Deste modo, em Time’s Arrow, Amis parece tentar fazer aquilo que o “anjo da História” de Benjamin não consegue: acordar os mortos e restituir-lhes a vida. Construir de novo aquilo que foi destruído. Ou seja, é a ficção a restituir o sentido da história onde a racionalidade moderna terá falhado.

No final do romance somos surpreendidos pela ideia de que a seta do tempo acaba por voltar à sua direcção habitual, ou seja, ao tempo histórico. É inevitável não pensar na História como pesadelo do qual não se consegue acordar, tal como nos disse James Joyce em Ulisses. Para Finney (2006), esta é a ideia da história do Holocausto senão como pesadelo recorrente, então como narrativa que não é fechada, isto é, uma história que necessariamente se conta e reconta.

O que torna talvez Time´s Arrow tão interessante é o facto de perturbar voluntariamente o leitor ao obrigá-lo a participar tão activamente na história do romance. Ou seja, obriga-se o leitor a buscar nas suas memórias o conhecimento que possui relativamente ao Holocausto. Desta forma, é a memória e o conhecimento do leitor que é invocado aquando da leitura do romance de Amis. É inegável que Martin Amis coloca ao leitor um desafio, um (re) visionamento tanto do seu presente (para conseguir perceber a lógica da narrativa invertida que o autor apresenta), como do passado, neste caso, do Holocausto. Isto acontece dada a amnésia do narrador fazendo com que o leitor seja na verdade a testemunha não só do que aconteceu, como também do que vai acontecendo às personagens que povoam a ficção de Amis. É a extraordinária técnica narrativa que o escritor usa que faz com que nós, os leitores, interfiramos no silêncio que a falta de memória do protagonista parece sugerir.

Ana Pires Quintais

1 O título do capítulo de Amis evoca deliberadamente a famosa cena no livro Se Isto é um Homem (2002) (tradução portuguesa de Se Questo è un Uomo, 1958) de Primo Levi, na qual o escritor e sobrevivente de Auschwitz escreve: “Abri a janela, arranquei o pedaço de gelo, mas imediatamente avançou um matulão que andava lá fora e mo tirou brutalmente. – Warum? perguntei-lhe no meu pobre alemão. – Hier ist kein warum, (aqui não há porquês), respondeu-me, empurrando-me para dentro à força.” (27)

Referências bibliográficas

Amis, Martin (1992). Time’s Arrow or The Nature of the Offense. New York: First Vintage International Edition. 1991

Finney, Brian (2006). “Martin Amis’s Time’s Arrow and the Postmodern Sublime”. in Gavin Keulks (ed). Martin Amis. Postmodern and Beyond. New York: Palgrave Macmillan, 101-116.

Horowitz, Sara R. (1997). Voicing the Void: Muteness and Memory in Holocaust Fiction. New York: State University of New York Press.

Levi, Primo (2002). Se Isto é Um Homem. Colecção Mil Folhas. Jornal Público. (Trad. Simonetta Cabrita Neto). 1958

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