1 Se quiseres abrir um poço, desenha uma pequena, estreita abertura. Quanto mais larga ela for, menos profundo o poço. Porque não tens, para abrir um poço, todo o tempo do mundo, nem toda a energia.
1.1 Não terás tempo para ler todos os livros do mundo.
1.2 Podes subir ao topo de uma montanha, e dizer: cheguei, estou no topo da montanha, esgotei a montanha. Mas não consegues chegar ao fundo de um poema e dizer: cheguei, atingi o fundo, esgotei o poema.
1.21 Inventa metas estritamente humanas.
1.22 Não inventes metas estritamente humanas.
2 Existe um tempo para desejar quase tudo e um tempo para ficar com quase nada.
3 Lê o que está no poema. Aponta, com o teu dedo, de cada vez: aqui.
3.1 Podes defender tudo, mesmo o inverosímil. Quanto mais inverosímil, mais terás de ser claro na tua defesa. Galileu e os seus discípulos, em Brecht: demonstrar que mesmo Aristóteles estava errado.
3.2 A verdade dura apenas um instante.
4 É o poema que pede o teu ensaio. Quando escreveres sobre o poema, ouve o pedido do poema.
4.01 Um ensaio é uma forma de audição.
4.02 Não forces o poema a vir ao teu ensaio, mas deixa que o poema invente o teu ensaio.
4.1 A maior parte da tua leitura é intuitiva, decerto. Mas podes deixar o teu corpo disponível para intuir. Esquecer o corpo de tal maneira que ele seja facilmente despertado pelo atrito do poema. Preparar o imprevisível.
4.2 O pequeno esforço da espontaneidade.
4.21 Rosalyn Tureck: “I do what Bach tells me to do.”
4.22 O ensaio serve-se do ensaísta para existir.
5 Escrever sobre poesia é ser especialista em todas as coisas.
5.1 E tudo se desconstrói.
5.11 Perigo extremo da desconstrução de tudo: Hofmannsthal, Carta a Lord Chandos.
5.12 Ameaça real, inevitável, insanável, da aporia. Tens de saber viver com isso. E ser honesto: reconhecê-la, quando acontece.
6 O ensaio é perigoso, o ensaio é o perigo. Escreve um ensaio para entrares em perigo. Escolhe o teu perigo, à tua desmedida.
6.1 O ensaio transfigura o ensaísta. Escrever o ensaio não é aplicar tecnicamente um instrumento hermenêutico a um objecto vítima de corte epistemológico. Mas escrever o ensaio mina a hermenêutica e a epistemologia.
6.2 Talvez possas sobreviver ao ensaio. Talvez não possas. Decerto não podes. Se sobrevives, sobrevives outro. O ensaio transfigura o ensaísta.
6.21 Escreves para não saber quem és.
6.22 Desconhece-te a ti mesmo.
7. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se
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Pedro Eiras, Janeiro 2012