A lógica anatómica de Antonin Artaud

Toda a obra é objecto de debate. A de Artaud não é objecto de debate.

Artaud escreve numa carta de Rodez: «Nunca fui capaz de suportar alguém que, a partir de um ponto de vista semântico, histórico, arqueológico, ou mitológico, se intrometesse com as linhas de um grande poeta – as linhas de um poeta não são explicáveis».

Falar de Artaud só pode significar que Artaud se tornou «relevante». E a relevância é a constatação de que o seu corpo ou os fragmentos «pestíferos» que nos deixou sob a forma de uma linguagem ensombrecida ou iluminada por essa fuga à «consciência unânime» a que chamamos de loucura, lhe foram, finalmente, arrabatados pelas nossas (bem comportadas) intenções celebratórias. Daí a dimensão fortemente irónica do presente exercício.

Falo no seu corpo e na imensidão de fragmentos de que é constituída essa obra cuja intensidade e brilho se diluem mal a designamos por «obra». Coloco o seu corpo e esta constelação de fragmentos no mesmo plano, porque em Artaud cada fragmento ou estilhaço de linguagem mais não é do que uma metonímia do seu corpo: um corpo que se estilhaça, que se esboroa, que se dilui, e cuja linguagem (ou pelo menos o seu eco sob a forma de um conjunto de propósitos textualmente fixados: os seus escritos), se afirma, correlativamente, como um índice daquilo a que Susan Sontag chamará de  uma «fenomenologia do sofrimento».

O corpo de Antonin Artaud não vive apenas em continuidade metafórica e metonímica com a linguagem (no seu desmantelamento recíproco). O corpo não é apenas o território a partir do qual se semeiam as ofensas, as invectivas, ao pensamento. O corpo, ritualizado até ao limite, o corpo-teatro artaudiano, assume uma dimensão sacrificial. Através da mais disruptora e radical das metamorfoses, ele instaura-se como sujeito e objecto de transformação da realidade. O martírio de Artaud desdobra-se numa sucessão de episódios na qual sobressai a sua sujeição aos regimes disciplinares da psiquiatria do seu tempo.

Citaria três fragmentos que expressam o estilhaçamento e a experiência de sofrimento que o percorre. O primeiro é um curto poema. O segundo e o terceiro retiro-os do seu famoso Van Gogh, O Suicidado da Sociedade, com a advertência de que Artaud fala, especularmente, através de Van Gogh.

«Quem sou eu? / De onde venho? / Eu sou Antonin Artaud / E digo isto / Como sei dizê-lo / imediatamente / verão meu corpo presente / voar em estilhaços / e refazer-se / sob dez mil aspectos / notórios / um corpo novo / no qual jamais / me poderão / esquecer.»

«… onde estava o pensamento num mundo apenas feito de elementos em plena guerra, recompostos mal eram destruídos, porque o pensamento é um luxo de paz.»

 «Meteu-se-lhe pois no corpo  esta sociedade absolvida, consagrada,  santificada  e possessa, apagou-se-lhe a consciência sobrenatural que ele acabava de ganhar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna, submergiu-o num derradeiro acesso e, tomando-lhe o lugar, matou-o. // Porque é lógica anatómica do homem moderno só ter conseguido viver, ou pensar em viver, como possesso.»       

O «eu» de Artaud surge-nos não como uma entidade dotada de fronteiras claramente delineadas, ou como uma entidade coerente, não contraditória e plenamente incorporada, mas como um processo. Um processo de auto-inquirição em que, no momento em que se exerce, se condena imediatamente à transitoriedade do sentido, à impermanência do pensamento, à irresolúvel fragmentação dos princípios de unidade convocados, ao estilhaçamento imediato e violento do corpo, esse espaço onde se joga, em última instância, toda a vontade de auto-superação.

Uma vontade de auto-superação que se encontra registada em mais de um momento do seu percurso biográfico. Exemplo disso mesmo é a sua partida para o enigmático país dos Tarahumaras em 1936. Numa carta em que explica as razões que o levaram ao México, Artaud escreve:

«… Não foi Jesus Cristo que eu fui procurar à terra dos Tarahumaras, foi a mim próprio, a mim, Antonin Artaud, nascido a 4 de Setembro em Marselha, no nº4 da Rua do Jardin-des-Plantes, de um útero onde não tinha que estar, onde nunca tive que estar mesmo antes, porque não é forma de se nascer essa de ser copulado e masturbado nove meses pela membrana, a membrana brilhante que devora sem dentes, como dizem os Upanishads, e eu sei que tinha nascido de outro modo, das minhas obras e não de qualquer mãe…»

Mas esta vontade de auto-superação traduziu-se por um rotundo fracasso. Se o mundo se arrasta por palavras, se Artaud, como qualquer um de nós, se arrastava por palavras (apesar da sua recusa determinada em se submeter à ilusória inteligibilidade que emana das palavras), porém, e como previra, as palavras trairam-no profundamente, ao ponto de poder dizer «às vezes sinto que não escrevo, que só descrevo os esforços que faço para escrever, o esforço que faço para nascer».

Luís Quintais
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