Mnemosine ou a arte de reconstrução das imagens

bertulino de souza

Memórias são vidas, sonhos, desejos, negação ou aceitação, são imagens em movimento e assim reconstroem-se na medida em que são solicitadas, desejam-se ideias no sentido platónico da palavra. Parto destas daqui para pensar, reconstituir e redesenhar como se deu a recolha de dados da tese de doutoramento em Antropologia Social e Cultural, tendo como foco, duas unidades dos Caps – Centros de Atenção Psicossocial que lidam com transtorno mental em Natal – Rio Grande do Norte (Brasil) e, também, o que elas podem eventualmente significar para a continuidade do trabalho.

Como recurso metodológico, realizo aqui um bricolage que utiliza fragmentos do filme Inception (2010) de Christopher Nolan para requisitar e indissociar a memória como produto e produtora de novos sentidos e, como tal, navego pela complexidade da trama cinematográfica, das notas de terreno e das imagens do cotidiano de usuários através de eventos a eles relacionados.

Com isto, considero um triplo movimento que pode permitir compreender a relação que estabeleço entre o cinema, as notas de terreno e outras imagens. Revelo com a ação do bricoleur a inquietação da recolha de dados representada pelos medos e angústias, mas, sobretudo, a interação crescente com a atividade de terreno e com os diferentes sujeitos da investigação: utentes, técnicos e familiares, personagens que me proporcionaram e proporcionam um mergulho antropológico nas suas sensibilidades.

Estigmas são sólidas ideias que encontram num corpo frágil um terreno fértil para crescer e se multiplicar. Os estigmas existem, à semelhança de Inception (2010), como uma capacidade pulsante, mutante e polimorfa de introduzir uma ideia, de investir numa perspectiva e de dialogar com situações e objetos pouco compreensíveis, mas determinados. No filme, a personagem de Leonardo DiCaprio (Dom Cobb), um expert na técnica do «inception», tenta inocular num jovem empresário uma ideia que vai alterar sua forma de ver a atuação empresarial e consequentemente implicará na dissolução do império que este comanda.

Por analogia, o império da existência humana começa a ruir quando não se tem domínio sobre o que se é ou o que se pretende desta existência, é assim que as pessoas com transtorno mental se vêem e são vistas e em muitos casos. Este império tende a ruir especialmente pela incredulidade alheia na mudança, na melhora, na cura, e isto é potencializado e fortalecido pelo descrédito próprio, pela noção de fracasso e de incapacidade, pela convicção de que se é objeto de olhares e avaliações permanentes, que os outros o conhecem melhor que si mesmo e sabem determinar seus movimentos mais elementares.

[…]

Bertulino José de Souza [Fragmentos do texto apresentado na sessão #4 de Miplanaltos, do dia 11 de Julho de 2011 às 17h]

Possui graduação em Educação Física pela Universidade Federal de Uberlândia (1994), Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2002) e cursa o Doutoramento em Antropologia Social e Cultural na Universidade de Coimbra – Portugal. Professor Assistente III com Dedicação Exclusiva na UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte no Curso de Educação Física do CAMEAM. Foi docente da Pós Graduação (especialização) da FAL – Faculdades de Natal, Faculdades Integradas de Patos FIP e da UAB-IFRN (Educação a distância). Preocupa – se com questões relacionadas à qualidade de vida, estruturação do pensamento e saúde mental, tema que investiga atualmente.

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.

%d bloggers like this: