Sobreviver – Raul Brandão, Stanisław Lem, Andrei Tarkovsky

pedro eiras

Sobreviver – Raul Brandão, Stanisław Lem, Andrei Tarkovsky (fragmento 1)

Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.

Raul Brandão, Húmus

A vida oculta, diz Húmus, é a verdadeira vida. Essa ocultação, a irremissível distância a que a vida se salvaguarda constituem precisamente a sua verdade: nenhuma supuração poderia expor por inteiro os mortos ressuscitados. Mesmo quando regressam à casa dos vivos, eles exigem o pudor, um salto ético no desconhecido, a mistura da vida com o que excede a vida, da gramática com o terror do inominável. Quando regressam, se alguma vez regressam, os mortos nunca realmente aparecem: revelam na realidade o buraco negro, denso e obscuro, do irresgatável.

Sobreviver – Raul Brandão, Stanisław Lem, Andrei Tarkovsky (fragmento 2)

Introduzo uma longa citação de Húmus, que poderia ser lida como se pertencesse a Solaris:

“Anoitece e sempre a aparição me persegue… Nunca mais deixei de a ver. A esta hora desesperada do crepúsculo ei-la que reaparece. Está mais pálida e nos seus olhos há uma grande, uma estranha piedade. Dir-se-ia que os seus olhos absorveram outra vez todas as lágrimas que por mim chorou… Não me acusa… A princípio a dúvida pôs-se a rir dentro de mim com escárnio, e tive vontade de lhe atirar lama e injúrias. Mas o meu riso transformava-se, passava por todos os tons, até se parecer com a respiração sufocada do terror.

Convenci-me a frio de que depois da morte só o nada existe e no entanto à hora melancólica do crepúsculo ela torna de mãos estendidas e os olhos rasos de lágrimas. Desvairado lhe digo: Que queres? Não acredito em ti, nem preciso da tua piedade. É a esta hora incerta, a esta hora aflitiva e cheia de angústia do crepúsculo, em que as criaturas compreendem o mistério e em que tudo tem vozes – é a esta hora desesperada, que ela me aparece sempre a soluçar.

Não me acusa – é pior. Antes me perseguisse com ódio, antes me aparecesse como uma visão vingadora!… Os seus olhos são de piedade, o negro cabelo emoldura a sua clara figura e os seus braços estendem-se para mim…

Segue-se o lamento da mulher morta, ressuscitada?, e que quer viver. Mas o que me interessa nesta página extraordinária é a complexidade de um juízo interior que começa, a violenta emergência de sentimentos ambivalentes, a representação que Gabiru faz do seu próprio inconsciente. Como Hari aparecendo a Kris, em Solaris, aqui é a mulher que aparece a Gabiru, e não este último que a ressuscita e convoca: “Anoitece e sempre a aparição me persegue… Nunca mais deixei de a ver. A esta hora desesperada do crepúsculo ei-la que reaparece.” Como Hari aparecendo na sequência do sonho de Kris, a mulher de Gabiru aparece no crepúsculo; como Hari aparecendo, não para culpar Kris, mas involuntariamente levando-o a reviver a culpa por a ter deixado morrer, assim a mulher de Gabiru tem nos olhos “uma grande, uma estranha piedade”, não o acusa mas leva-o a sentir “a respiração sufocada do terror”.

É paradoxal que este alquimista, depois de ter ressuscitado os mortos com electricidade, diga: “Convenci-me a frio de que depois da morte só o nada existe”, ou, depois de ter ressuscitado a sua mulher: “Não acredito em ti”. Mas há aqui menos contradição narrativa do que ambivalência nos desejos de Gabiru, que ao mesmo tempo ama e odeia os mortos, se defende e acusa no mesmo tribunal interior. E esse tribunal é implacável porque, como diz Gabiru: ela “Não me acusa – é pior. Antes me perseguisse com ódio, antes me aparecesse como uma visão vingadora!… Os seus olhos são de piedade”. Se a mulher de Gabiru não o acusa mas ele continua a sentir culpa, é decerto porque o próprio Gabiru sente desejo de punição e inventa uma acusação que já nem a mulher morta sustenta. É para se punir a si próprio que Gabiru convoca (mas denegando essa mesma convocação) a mulher injustiçada e piedosa. Dolorosa, dialéctica máquina de tortura interior.

Encontro uma auto-tortura aproximável em Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky. Como a mulher de Gabiru, Hari morre por abandono; mas em Húmus há um abandono por alheamento, em Solaris por fúria. Hari suicida-se; Kris conta que se tinham separado na sequência de uma discussão:

as pessoas ignoravam o que lhe tinha dito cinco dias antes; ignoravam que, para a atingir mais cruelmente, eu tinha levado as minhas coisas e que ela, enquanto eu fechava as minhas malas, me tinha dito muito tranquilamente: «Sabes o que isto significa?» E eu fiz de conta que não compreendi, quando compreendia perfeitamente, mas achava que ela era covarde; aliás, já lho tinha dito… E agora, ela estava deitada sobre a cama e olhava atentamente para mim, como se não soubesse que tinha sido eu quem a matara.

Kris torna-se assim responsável directo pela morte de Hari; assume, perante o fantasma, perante a materialização de Hari: “tinha sido eu quem a matara”. Para um sobrevivente, não há suicídios, apenas assassínios. Pela rememoração, Kris acusa-se e compreende que cada um dos seus gestos incluiu uma provocação; mas toda a consciência da culpa é assumida por ele, enquanto o fantasma age “como se não soubesse”. Perante a impassibilidade do outro ressuscitado, o sujeito detém todo o saber e toda a culpa: se Hari não o acusa, Kris sente a angústia do seu próprio implacável juízo interior.

Assim também em Tarkovsky, no fim da primeira parte de Solaris. Kris dorme, acorda, Hari está impassível no quarto. Ele começa por aceitar beijá-la, depois tenta alcançar a pistola aos pés da cama: não sabemos se quer suicidar-se, por terror, ou matá-la, segunda vez. Hari não se apercebe do gesto. Depois, embora reconheça Kris, não se reconhece a si mesma numa fotografia. Do passado, traz apenas uma cicatriz no braço (prova do seu suicídio, mas que ela não sabe decifrar) e uma angústia infinita sempre que Kris a deixa sozinha (decerto uma repetição do terror que sentiu quando foi abandonada, e que a levou ao suicídio).

Em rigor, não se trata de uma ressurreição de Hari: ela é apenas a materialização do sonho de Kris, um duplo, uma projecção que repete cicatrizes e medos mas sem os poder compreender. Apenas Kris suporta todo o sentido da cena, a interpretação, que é também uma interpretação da sua própria culpa. Hari não o acusa, não saberia de quê acusá-lo e, como em Húmus, essa é a maior tortura de Kris. Hari (Natalya Bondarchuk), por enquanto, é de uma impassibilidade desarmante; nem ousa perguntar por que razão o seu vestido não tem fecho, abertura, não pode ser despido. Porque é apenas um duplo do vestido original, uma cópia irreal; mas é também uma veste sem costura: pura inocência.

Pedro Eiras

[Fragmentos do texto e vídeo apresentados na sessão #3 de Milplanaltos, do dia 13 de Junho de 2011 às 17h]

Pedro Eiras_Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Investigador do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Dedica-se a estudos de literatura portuguesa dos séculos XIX-XXI, literatura comparada, estudos inter-artes, investigação sobre ética. Desde 2001, publicou diversos livros de ensaio e crónicas: Esquecer Fausto, A Moral do VentoA Lenta Volúpia de CairTentaçõesBoomerang, Substâncias Perigosas. Com o ensaio Esquecer Fausto, ganhou o Prémio PEN Clube Português de Ensaio em 2006. É também autor de obras de ficção, poesia, teatro; as suas peças foram publicadas, traduzidas e encenadas em sete países.

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.

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