Acerca da poesia contemporânea

Theodore de Bry, Matando o prisioneiro (1592)

Toda a pretensão de uma posterioridade à tragédia – que, dada a identificação entre trágico e mundo antigo, é também uma pretensão de modernidade – parece resumir-se, tantas vezes, a um resignar-se a alguma combinação de trágico e cômico, na impossibilidade de extinguir de vez o trágico. Ou seja, ergue-se o cômico contra o fundo de tragédia, assim como se ergue o moderno contra o fundo do antigo, sempre à espera de uma genuína alegria futura. Mesmo a felicidade ostensiva oferecida, a bom preço (e a caro custo), pela indústria cultural jamais foge a esta estrutura binária em que a comédia é sempre a máscara dissimuladora da tragédia, seu reverso e mesmo seu disfarce. É de dentro desta estrutura e com a esperança de sair de seu círculo vicioso que alguns poetas contemporâneos nos falam, mas não podem dizer, senão alusivamente – sibilinamente – deste outro momento, deste amanhã que lhes permanece, até agora, vedado.

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Que a alegria como tarefa (isto é, como algo a ser conquistado arduamente, dia a dia, por mãos e mentes humanas, e não um dom gratuito, e por isso sempre um pouco desprezível e adiável, de algum deus ou da natureza) tenha permanecido no horizonte da poesia brasileira contemporânea é um fato que não pode ser menosprezado em qualquer futura história (a rigor, até agora, não existe nenhuma) de nossa poesia moderna. Afinal, esta persistência é, de fato, uma das principais evidências de uma continuidade do moderno ao longo do século XX e ainda hoje nestes primeiros anos do XXI, pondo em questão as avaliações muito apressadas de uma definitiva superação da modernidade, e não só na poesia, que teria coincidido, no plano da história mundial, com a derrocada do bloco soviético e a suposta vitória global do capitalismo.

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Carlito Azevedo vem construindo sua poesia, ao longo dos quatro livros que publicou (e aos quais fez seguir uma antologia pessoal, com a reordenação dos poemas segundo eixos temáticos), como uma teimosa perseguição da alegria e uma permanente reação à melancolia e a outras formações emocionais ou tópicas negativas. Negatividade que, de resto, parece ser a forma mesma do real, em seu inevitável assalto à poesia, como Carlito nunca tentou esconder. No «Limiar» de um de seus livros, a inscrição de uma imagem sumamente negativa faz-nos ler o que se segue por uma ótica baça: «Do lixo da esquina partiu / o último vôo da varejeira / contra um século convulsivo». Sua principal estratégia retórica para fazer frente a esta negatividade tem sido, ao que parece, concentrá-la, imageticamente, num determinado objeto, muitas vezes imaterial (mas, outras vezes, bastante concreto), que é isolado num ponto do poema e, de lá, fica a engasgar ou travar o restante do que é dito, este resto que tende sempre a uma espécie de hino tímido a uma alegria ainda não conquistada. É assim que se dá com aquele «pensamento triste» para o qual parece convergir, dialeticamente, todo o quadro de aparente felicidade, ou pelo menos tranqüilidade, pintado no poema «Vento»: «pensamento triste» que, despregando-se dos «cabelos desgrenhados» do filho do poeta, aparece-lhe «como um sorriso», mas também «como um relâmpago». Acontece de modo semelhante com a pedra de «Salto», a única que poderia «tornar-se lírio» ou «o salto de um tigre / e não o tigre», mas que é, aqui e agora, o «coração da casa / que acabas de deixar / para sempre». Ou ainda aquele casaco que, justo porque inexistente ou ausente, se torna símbolo dos trabalhos da ficção – ou da saudade em sua versão ativa – contra o modo como freqüentemente, e mesmo gozosamente (há gozo na melancolia), definimos nosso eu a partir de uma falta (falta do outro com que eventualmente nos confundiremos, falta daqueles que Carlito, recorrendo a uma expressão de René Char, chamou «os aliados substanciais», falta de uma comunidade, que só existe como tal ao fundar-se não na necessidade, mas na possibilidade de uma alegria comum):

Liliana Ponce não esqueceu o seu casaco no salão de chá

Liliana Ponce nem estava de casaco

(No Rio de Janeiro fazia um belíssimo dia de sol e dava gosto olhar cada ferida exposta na pedra)

Liliana Ponce, conseqüentemente, não teve que voltar às pressas para a casa de chá

(a garçonete com cara de flautista da Sinfônica de São Petersburgo não veio nos alcançar à saída acenando com um casaco esquecido

Desse modo Liliana Ponce chegou a tempo de pegar o avião

Partiu para a Argentina

Pode-se ler como uma perfeita glosa a este poema, atenta às ambivalências que o percorrem (sol e ferida, proximidade – Rio de Janeiro – e distância – Buenos Aires –, presença e ausência), o trecho de uma entrevista de Carlito em que ele diz lhe interessar não o tema da saudade por si, mas a «dinâmica desse sentimento», pelo «modo muito sutil» com que a saudade envolve a memória: «Saudade envolve uma presença, uma ausência e uma recuperação da presença pela memória». Ao que acrescenta: «Mas Aristóteles já se perguntava: diante do mistério da memória, o que é exatamente isso que, pela memória, se faz presente sem estar presente, se “apresenta” sem existir no presente? É outra coisa que não o que foi visto ou vivido presentemente certa vez. Mas tampouco é uma pura invenção. É um híbrido que, nisso, se parece muito com o poema, nomeia a coisa sem ser a coisa, sendo outra coisa. Essa dinâmica de fuga e neutralização do tempo e da presença traz um tremendo interesse à composição». É a forma mesma da comunidade por vir que aqui se desenha. Não por acaso o poema foi publicado originalmente na plaquete Versos de circunstância, toda ela uma celebração contínua da amizade e do amor, formas elementares daquela comunidade na concepção da lírica.

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Manuel Bandeira, num de seus mais famosos poemas, conjura a «vida inteira que podia ter sido e que não foi». Carlito Azevedo, por sua vez, faz coexistirem, pelo menos no espaço ambivalente do poema, a vida possível – que, se não foi, ainda pode ser – e a vida efetiva. A saudade, na sua poesia, não é apenas o lamento pela ausência no presente, mas também o canto por meio do qual se restaura – ou antes se constitui, se não há nenhuma imagem prévia a prenunciá-la – a presença na ausência. Não se trata mais de se remeter a uma promessa de felicidade encapsulada na infância, mas de escavar, no presente, pela e na poesia, o espaço no qual, como num relicário, o poeta há de depositar sua frágil alegria. É assim que uma outra modernidade se faz possível, pela ênfase na presentidade, no tempo-de-agora (Jetztzeit) benjaminiano que Haroldo de Campos descreveu como a modalidade temporal de uma poesia ainda moderna mas já «pós-utópica».

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«Amigo» – escreve Marcos Siscar num poema – «é aquele de quem me despeço». Em outro poema, escrito posteriormente, parece querer complementar o que naquele outro se diz: «estar longe é o começo de estar vivo». O flerte com certa melancolia é evidente. Mas Siscar não é dos que se furtam de vez à tarefa da alegria, embora, para ele, esta seja sempre uma «alegria difícil», como está registrado no título de uma seção do livro Metade da arte. É nos três versos decisivos do poema «Psicanálise caseira» que esta dificuldade melhor se enuncia, sob a forma de dois axiomas e uma interrogação:

há coisas de sobra que não se dizem

há coisas que sobram no que se diz

nossa miséria é uma alegria de palavras?

Aí está resumido todo o programa da poesia de Siscar, na constelação de quatro termos fundamentais dispostos em dois pares baseados simultaneamente em oposição e mútua implicação: sobrar (as «coisas», a vida) e dizer (as «palavras», a poesia); miséria e alegria.

Eduardo Sterzi

[Estas digressões foram publicadas originalmente no livro A prova dos nove. Alguma poesia moderna e a tarefa da alegria (São Paulo: Lumme, 2008).]

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