A Perfeição Transparente do Futuro Digital

manuel portela

A Day Made Of Glass:

«Acordo a teu lado mais um dia. Acordo mais um dia. Mais um dia a teu lado. Acordo. O meu anel de casamento anuncia a quem vê o modo de acordar deitado a teu lado que este começo prefigura. Este modo de começar o dia neste modo de começar o filme. Mas isto não é um filme. Isto é o começo de um dia. Deste dia. De um dia no mundo. Não te vejo ainda. Tenho os olhos fechados e sei que tens os olhos fechados também. A luz do sol vai entrar e vai encher o quarto.

Tenho os olhos fechados e vejo-te. Sinto o peso do teu braço sobre o edredão. Deitada a teu lado. Oiço-te respirar. Escuto o silêncio do quarto. Embora não o veja, sei que o meu rosto oferece à câmara a tranquilidade que é dormir a teu lado. Como se a sua expressão facial fosse desenhada a partir de dentro e os músculos se conformassem ao conforto e à segurança de estar aqui. De estar aqui, deitada ao lado da ideia de estar deitada a teu lado. Vejo-te sem te ver.

7 da manhã No Futuro Próximo. As narrativas oferecem-nos um modo de tornar a singularidade da experiência inteligível e, com isso, um modo de imaginarmos o mundo e de tornarmos inteligíveis as nossas acções nele. Tornar a singularidade do real representável é traduzir para os códigos simbólicos aquilo que surge fora da ordem do representável como puro acontecimento. É isso o que sucede no horizonte de singularidades da maldade, do amor, da morte, da natureza. Sem essa tradução, isto é, sem a violência de nos submetermos à simbolização com que julgamos produzir uma ordem de inteligibilidade para os acontecimentos singulares, o real seria uma ferida aberta permanente. Caótico, doloroso, incompreensível, injustificável, inapreensível, impadronizável, imoralizável.

Um Dia Feito de Vidro. Não fui eu que escrevi o argumento. Apenas fui contratada para fazer a figura da mulher. A luz da manhã torna-se cronológica na numeração do relógio, cuja pulsação marca no fluxo do tempo a data e a hora do meu trabalho. O relógio é um sincronizador universal de gestos e de encontros. É a partir dele que a coreografia matinal do estúdio toma a sua forma. É a partir dele que as trajectórias deste dia se vão cruzar. É ele a máquina do tempo que traz o tempo para fora do corpo. A máquina que dispõe do corpo. Que mede o trabalho que lhe cabe produzir. Já estamos atrasados. Espero não ter de voltar amanhã para repetir tudo.

O quarto, amplo e vazio, ofereceu-se também como uma superfície de representação, como um espaço de teatralidade onde a vida pôde ser encenada. No qual a exterioridade dos gestos e das acções pôde ser repetida até se obterem deles as melhores tomadas de imagem. As mais carregadas de poder simbólico. De capacidade de evocar o espaço habitado da casa e o espaço construído da família. Um e outro como conjuntos de interacções que criam uma possibilidade de se ser humano. De se sentir a ser consigo e com os outros: consigo a partir dos outros e com os outros a partir de si. O quarto de dormir,a casa de banho, a cozinha, a sala, a casa – oficinas de construção do humano dentro do humano. E depois o automóvel, a estrada, a rua, o escritório, a loja – fábricas de reproduzir a produção e a economia do humano.

Mas o mais importante é que o filme não se veja. E que se veja apenas a narrativa dele – essa relação natural, multitoque e epidérmica com todos os dispositivos, prolongamentos sensoriais do corpo concebidos para discipliná-lo e codificá-lo. Que o próprio filme possa ser transparente como o vidro – e que a câmara e a montagem se dissolvam totalmente nessa imagem quente e fria da felicidade: uma família feliz num mundo ordenado. Nenhuma desorientação, nenhuma hesitação, nenhum dilema, nenhuma dor, nenhuma alteridade, nenhum conflito. A tecnologia finalmente invisível: a mediação – hardware e software – tornados enfim transparentes. Os próprios seres humanos vitrificados num processo de automediação contínua. Uma imagem de tudo e uma imagem para tudo. Todos os pensamentos, todas as acções, todas as emoções vividos como imagens. Todo o real codificado.»

Manuel Portela

[Fragmento do texto e vídeo apresentados na sessão #2 Milplanaltos, do dia 02/05/2011]

Manuel Portela_Professor do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É membro do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Foi Director do Teatro Académico de Gil Vicente, entre 2005 e 2008. É autor, entre outras, das primeiras traduções portuguesas de Cantigas da Inocência e da Experiência (1994; edição revista, 2007) e Milton (2009), de William Blake, e de A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne (2 vols, 1997-98), pela qual recebeu o Grande Prémio de Tradução. Publicou em 2003 O Comércio da Literatura: Mercado e Representação, um extenso estudo sobre o mercado literário inglês no século XVIII. Nos últimos anos tem investigado a digitalização da literatura e da cultura, tendo leccionado diversas disciplinas e seminários no domínio das humanidades digitais: «Cultura Digital e Estudos Literários», «Arquivos e Edições Electrónicas», «Literatura e Média na Era Digital», «Introdução aos Novos Média», «Arte e Multimédia» e «Poesia Cinética». É autor e web-designer do sítio DigLitWeb: Digital Literature Web <www.ci.uc.pt/diglit> (2005-2010).

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.

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