Monthly Archives: Maio 2011

Acerca da poesia contemporânea

Theodore de Bry, Matando o prisioneiro (1592)

Toda a pretensão de uma posterioridade à tragédia – que, dada a identificação entre trágico e mundo antigo, é também uma pretensão de modernidade – parece resumir-se, tantas vezes, a um resignar-se a alguma combinação de trágico e cômico, na impossibilidade de extinguir de vez o trágico. Ou seja, ergue-se o cômico contra o fundo de tragédia, assim como se ergue o moderno contra o fundo do antigo, sempre à espera de uma genuína alegria futura. Mesmo a felicidade ostensiva oferecida, a bom preço (e a caro custo), pela indústria cultural jamais foge a esta estrutura binária em que a comédia é sempre a máscara dissimuladora da tragédia, seu reverso e mesmo seu disfarce. É de dentro desta estrutura e com a esperança de sair de seu círculo vicioso que alguns poetas contemporâneos nos falam, mas não podem dizer, senão alusivamente – sibilinamente – deste outro momento, deste amanhã que lhes permanece, até agora, vedado.

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Que a alegria como tarefa (isto é, como algo a ser conquistado arduamente, dia a dia, por mãos e mentes humanas, e não um dom gratuito, e por isso sempre um pouco desprezível e adiável, de algum deus ou da natureza) tenha permanecido no horizonte da poesia brasileira contemporânea é um fato que não pode ser menosprezado em qualquer futura história (a rigor, até agora, não existe nenhuma) de nossa poesia moderna. Afinal, esta persistência é, de fato, uma das principais evidências de uma continuidade do moderno ao longo do século XX e ainda hoje nestes primeiros anos do XXI, pondo em questão as avaliações muito apressadas de uma definitiva superação da modernidade, e não só na poesia, que teria coincidido, no plano da história mundial, com a derrocada do bloco soviético e a suposta vitória global do capitalismo. Continuar a ler

A Perfeição Transparente do Futuro Digital

manuel portela

A Day Made Of Glass:

«Acordo a teu lado mais um dia. Acordo mais um dia. Mais um dia a teu lado. Acordo. O meu anel de casamento anuncia a quem vê o modo de acordar deitado a teu lado que este começo prefigura. Este modo de começar o dia neste modo de começar o filme. Mas isto não é um filme. Isto é o começo de um dia. Deste dia. De um dia no mundo. Não te vejo ainda. Tenho os olhos fechados e sei que tens os olhos fechados também. A luz do sol vai entrar e vai encher o quarto.

Tenho os olhos fechados e vejo-te. Sinto o peso do teu braço sobre o edredão. Deitada a teu lado. Oiço-te respirar. Escuto o silêncio do quarto. Embora não o veja, sei que o meu rosto oferece à câmara a tranquilidade que é dormir a teu lado. Como se a sua expressão facial fosse desenhada a partir de dentro e os músculos se conformassem ao conforto e à segurança de estar aqui. De estar aqui, deitada ao lado da ideia de estar deitada a teu lado. Vejo-te sem te ver.

7 da manhã No Futuro Próximo. As narrativas oferecem-nos um modo de tornar a singularidade da experiência inteligível e, com isso, um modo de imaginarmos o mundo e de tornarmos inteligíveis as nossas acções nele. Tornar a singularidade do real representável é traduzir para os códigos simbólicos aquilo que surge fora da ordem do representável como puro acontecimento. É isso o que sucede no horizonte de singularidades da maldade, do amor, da morte, da natureza. Sem essa tradução, isto é, sem a violência de nos submetermos à simbolização com que julgamos produzir uma ordem de inteligibilidade para os acontecimentos singulares, o real seria uma ferida aberta permanente. Caótico, doloroso, incompreensível, injustificável, inapreensível, impadronizável, imoralizável. Continuar a ler

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