Apresentação

Gilles Deleuze

«Tem-se a impressão de que o ideal da ciência já não é axiomático ou estrutural. Uma axiomática era a obtenção de uma estrutura que tornava homogéneos ou homólogos os elementos variáveis aos quais se aplicava. Era uma operação de recodificação, um restabelecimento de ordem nas ciências. Porque a ciência nunca deixou de delirar, de fazer passar fluxos de conhecimentos e de objectos totalmente desqualificados segundo linhas de fuga que iam sempre mais longe. Há pois toda uma política que exige que essas linhas sejam colmatadas e que uma ordem seja estabelecida. (…) É que a ciência devém cada vez mais ciência e acontecimentos, em vez de permanecer estrutural. Traça linhas e percursos, faz saltos, em vez de construir axiomáticas. O desaparecimento dos esquemas de arborescência em benefício de movimentos rizomáticos é disso um sinal. (…) Já não é uma estrutura que enquadra domínios isomórficos, é um acontecimento que atravessa domínios irredutíveis». – Gilles Deleuze & Claire Parnet (2004), Diálogos, Lisboa, Relógio D’ Água, p. 86.

Gilles Deleuze, o filósofo da complexidade, da ensamblagem e/ou agenciamento serve de mote para a apresentação por Luís Quintais do grupo de discussão Milplanaltos, um colectivo que apela para a procura de ligações entre as várias disciplinas, interesses e áreas que potenciam o conhecimento. Conhecimento esse que se pretende em rede, tal como no modelo (e mais especificamente através do conceito de rizoma) desenvolvido por Deleuze, um conhecimento que se “espalhe” de forma horizontal, abandonando desde já uma ultrapassada perspectiva daquele como estrutura hierarquizada, vertical, enunciando vícios de poderes estabelecidos.

Pretende-se pois concorrer contra uma forma de saber hierarquizado, procurar evidenciar as complexidades e questionar continuamente um mundo que é complexo e que se torna necessário confrontar. Mas confrontá-lo com júbilo, não fugindo da dificuldade das questões e não alimentando em primeiro plano as respostas, nomeadamente aquelas que se afiguram intuitivas.

E porque se torna necessário «escovar a história a contra pêlo» como diria Walter Benjamin, torna-se obrigatório criar problemas, fazer o múltiplo:

«O que é importante, não são nunca as filiações, mas as alianças ou as misturas; não são as hereditariedades, as descendências, mas os contágios, as epidemias, o vento.» – Gilles Deleuze & Caire Parnet (2004), Diálogos, Lisboa, Relógio D’Água, p. 88.

Ir ao encontro do contra-intuitivo, daquilo que não é evidente, e por que não? Criar um novo objecto:

«Interdisciplinary work, so much discussed these days, is not about confronting already constituted disciplines (none of which, in fact, is willing to let itself go). To do something interdisciplinary it’s not enough to choose a “subject” (a theme) and gather around it two or three sciences. Interdisciplinarity consists in creating a new object that belongs to no one.» – Roland Barthes, cit. James Clifford (1986), «Introduction: partial truths», in James Clifford & George Marcus (1986), Writing culture: the poetics and politics of ethnography, Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, p. 1.

Duchamp, réseaux des stoppages (1914)

Referências proporcionadas na sessão #1 de milplanaltos:

Barthes, R., cit. in James Clifford & Georges Marcus(1986), Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press.

Deleuze, G. & Parnet, C. (2004). Diálogos. Lisboa: Relógio D’ Água.

Gell, A. (1999), The art of anthropology. Londres: The Athlone Press [ed. Eric Hirsch].

http://www.interdisciplines.org/

Ana Pires Quintais

Vítor Matos

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