O número de ouro: de Camões a Almada Negreiros

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


“A proporção áurea ou razão de ouro aparece regularmente na Arte desde pelo menos o Séc. V a.C., quando o arquitecto Phideas a utilizou na concepção do Parténon. Desde então, este número tem surgido pela mão de artistas de diversas épocas e formas de arte, seja na pintura de Giotto, na música de Bartok, na poesia de Camões, na arquitectura do Iluminismo, nas construções de Le Corbusier ou nas obras de Almada Negreiros.
Data de 1509 a obra De Divina Proportioni de Luca Paciolli. Pedro Nunes refere-a nos seus livros, e pode tê-la feito chegar a Camões, que, alegadamente, terá utilizado a razão de ouro na sua obra. Finalmente, e celebrando os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, iremos conhecer a sua obsessão com as proporções – entre as quais o número de ouro – culminando na última obra da sua vida, Ode à Geometria.”

Nota biográfica

Carlota Simões é Professora Auxiliar do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, é membro do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e actualmente é Vice-Directora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. 
Um dos seus principais interesses é a divulgação da Matemática, que concretiza através de artigos, palestras ou actividades interdisciplinares.

Cego de tanto ver? O olhar do espectador de cinema, hoje.

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


Nesta sessão pretende-se abordar:
“O gesto fundador do cinema e a construção do espectador enquanto sujeito do olhar.
O desaparecimento do grande ecrã e da sala de cinema enquanto espaço único de receção do filme e a multiplicação crescente de ecrãs omnipresentes de todas as dimensões.
As mutações que esta evolução provocou no filme e na sua relação com o espectador.
A cinefilia ainda existe?
Que acontece ao olhar do espectador?
Ver tanto pode afetar esse olhar?”

Nota biográfica

Abílio Hernandez Cardoso é Prof. aposentado da Universidade de Coimbra onde lecionou Literatura Inglesa e História e Estética do Cinema, disciplina criada por proposta sua em 1992.Prof. Titular da “Cátedra Manoel de Oliveira” da Universidade Portucalense.Licenciado em Filologia Germânica pela FLUC com a dissertação Faulkner e o negro.Doutorado em Literatura Inglesa pela UC com a dissertação sobre James Joyce, intitulada De Ítaca a Dublin: Ulysses ou a odisseia da palavra.
Investigador do Centro de Literatura Portuguesa (UC), do Projeto Rutura Silenciosa: Intersecções entre a arquitetura e o cinema (Fac de Arquitetura da Univ do Porto) e colaborador do Centro de Estudos em Letras (UTAD).Alguns cargos e funções que desempenhou:
- Diretor do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (até 2011).
- Presidente de Coimbra, Capital Nacional da Cultura (2003)
- Pró-Reitor da Cultura da Universidade de Coimbra (1994-98).
- Diretor do Teatro Académico de Gil Vicente (1996-2001).
Actualmente é Mandatário da candidatura do movimento Cidadãos por Coimbra às próximas eleições autárquicas em Coimbra.
Publicações mais recentes:
2012: “De Hiroshima a Marienbad: diálogo com o cinema que nos olha” in Atas do Colóquio Internacional DIÁLOGOS EM MARIENBAD: Relações entre Literatura e Cinema (Universidade dos Açores). No prelo.
2012: “Cinema e poesia ou o coração da memória”, in Revista de História das Ideias, vol. 32.
2011: “De La Ciotat a Auschwitz, Hiroshima e Sarajevo: como se constrói uma memória, como se esquece uma cidade…”, in Cine y ciudad, ed. Francisco Salvador Ventura (Ed.). Santa Cruz de Tenerife: Intramar Ediciones, 2011.

De que forma é que as ideias podem ser perigosas hoje?

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


Nota biográfica

Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.
Dirige actualmente o projecto de investigação ALICE – Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu.
É co-coordenador científico dos Programas de Doutoramento:
- Direito, Justiça e Cidadania no Século XXI
- Democracia no Século XXI
- Pós-Colonialismos e Cidadania Global.
Tem trabalhos publicados sobre globalização, sociologia do direito, epistemologia, democracia e direitos humanos. Os seus trabalhos encontram-se traduzidos em espanhol, inglês, italiano, francês e alemão.

Visita ao estúdio de Francis Bacon

Perry Ogden, Photographs of Francis Bacon’s Studio at 7, Reece Mews. 1998

Perry Ogden, Photographs of Francis Bacon’s Studio at 7, Reece Mews. 1998

Visitei o estúdio do falecido Francis Bacon. Acho justificada a minha curiosidade de visitar o estúdio de um morto, desde o momento que se saiba que Francis Bacon nasceu no mesmo ano que eu. Não pelo seu nascimento original, mas pela sua última morada inabitual e último local de trabalho até à morte física confirmada desse animal que pintava. Foi o seu último nascimento, a última vez que o pintor da Irlanda em Londres mudou de ovo permanentemente.

Cada quadro teu produz, além do espanto que parte e reparte sem que ninguém fique com a melhor parte, uma legião relativamente desordenada de novos habitantes do mundo: manchas de tinta nas portas do estúdio, que fazem um índice das cores que rodeiam as cores do quadro; as fotografias que justificam as tuas ideias como pintor, que os críticos astutos colocam entre os materiais da tua invenção, que tu, cúmplice, rasgas ou amarfanhas para parecer que estavam lá antes da pintura, porque queres deixar uma pista enganadora sobre a viagem das coisas entre a causa e o efeito, como se os objectos criados pela tua pintura estivessem lá antes, em vez de nascerem como superabundância que escorre do que tu pintas.

As pessoas vêem que tu não pintavas só com pincéis, que deitavas mão a rolos, claro, mas isso, se te aproximava de um pintor de paredes, não chegava ainda a merecer menção; pintavas também com meias velhas, com pedaços de guardanapos (quem sabe de que banquetes) e com veludos; com pedaços de carne talvez não, a análise dos pigmentos nunca deu essa pista, a carne animal estava só na representação. Esse, mais um, ingrediente do caos, não ajuda a perceber a confusão que se instalou nos intérpretes acerca da ordem em que as coisas vêm ao mundo. As sinistras fotografias de cadáveres que restaram da violência naquela prisão americana que bem sabes, também essas fotografias criadas pelas tuas pinturas, que alguém disfarçou de material preparatório, perturbam-me, porque me perturba sempre a tentativa de forçar a seta do tempo a andar na direcção errada. Neste caso, ao contrário das fotos dos teus amantes, que acho magnífico que tenhas criado pintando, é quase criminoso que tenhas transformado essas ideias de cadáveres violentados em papel fotográfico, em imagens que até têm outro autor, conhecido e de nomeada, para aprimorar o distúrbio ontológico, e esse quase crime está num ponto simples que a tua voragem criadora não acautelou: é impossível saber se essas imagens, além de como fotos escorrerem da tua pintura, não prosseguiram o delírio do Ser ao ponto de terem criado aqueles cadáveres, aquela prisão, aquela chacina, até aquele Truman Capote que testemunhou tudo, dando ao teu acto de criação do mundo uma testemunha mundana.

Desorienta-me que se conte a história do mundo ao contrário da seta do tempo.

Francis Bacon tinha no estúdio uma fotografia de um homem que escreve enquanto a parte inferior do seu corpo se encontra entre as mandíbulas de um crocodilo morto.

Bruno Latour, esse teórico da sociedade como associação sempre em curso, como redes de forças, diria que não há crocodilos mortos, que um morto (crocodilo ou não) não empurra nada nem ninguém para fazer seja o que for e que qualquer coisa que não faz força alguma para que alguma outra coisa tenha uma acção segundo o seu impulso, essa coisa praticamente não existe. Vemos pouco as coisas paradas, fomos evolutivamente desenhados para dar atenção ao que se move, porque pode ser uma presa ou um predador, já as coisas paradas somem-se da vista, como se entrassem no nevoeiro da imaginação poética que nada faz ao mundo. Se não há crocodilos mortos, como pode estar um homem a escrever com a parte inferior do seu corpo entre as mandíbulas de um crocodilo morto? Isso seria uma coisa existente, praticamente existente, um homem que escreve, mesmo que faça pouco ao mundo, entre as mandíbulas de uma coisa inexistente, um crocodilo morto.

É certo que nos sentimos inúmeras vezes entre as mandíbulas de coisas inexistentes.

Contudo, a monarquia britânica não cessa de existir quando todos os membros da família real dormem e nenhuma cerimónia própria da instituição está em curso, porque as prerrogativas e os poderes permanecem, mesmo que não estejam a ser exercidos pelas quatro da manhã de uma qualquer terça-feira. Que a rainha durma, que durma o príncipe herdeiro na cama da sua mulher ou da sua amante, que durmam, por hipótese, todos os vivos na linha da sucessão, ainda assim a monarquia existe de forma contínua. Afinal, que diferença há entre uma casa real que dorme e um crocodilo morto, se ambos podem abrigar a parte de baixo do corpo de um homem que escreve. E, contudo, Latour insistiria, acho eu, que não há crocodilos mortos.

Com a tua pintura criaste um mundo que se passeia entre nós para além do alcance da tua mão e agora não te preocupas, decerto, em saber como se trata do animal e das suas manhas: nem imaginas o preço de lhe dar de comer, já para não falar das dificuldades de explicar a coisa quando o nosso filho pergunta porque é que o animal pendurado no talho parece um cardeal e está ali na parede à nossa vista.

Das tuas pinturas saíram como filhas (esta é uma história em episódios inumeráveis) as fotografias de Muybridge, que ficaram conhecidas como uma enciclopédia de imagens do corpo humano em actividades diversas; da superfície enganadoramente quieta dos teus quadros nasceram as infinitas sucessões de imagens, quase fílmicas, de toda a espécie de torsões e convulsões que os corpos humanos fazem, nascendo a carne em movimento de ideias que não encontram repouso e que tu pintavas em cima da ginástica da alma humana enquanto alma animal enquanto alma capaz do pior das almas dos deuses.

A tua biblioteca de páginas arrancadas a livros e revistas, centenas de folhas deslocadas da sua casa, metade de cada folha inutilizada, porque só uma página de cada folha te interessava para essa biblioteca nómada dentro do caos do estúdio, porque só uma página de cada folha podia servir-te de espelho pregada nas paredes da cozinha com banheira (não sei se alguma vez tentante separar as duas páginas de uma folha), a tua biblioteca de páginas arrancadas como pedras atiradas à água que ficam a levitar dois dedos de tensão acima da superfície, é um monstro colorido criado pelos teus quadros para nos enganar com o erro classificatório habitual: materiais de trabalho. Como se existissem antes do que as criou. É como perguntar onde dormem as libelinhas, quando toda a gente sabe que as libelinhas não dormem, que quando dormem parecem aviões comerciais num aeroporto, não libelinhas.

Não sei se alguma vez mediste o alcance da tua responsabilidade. Criar mundos com tintas pode ser repugnantemente irresponsável. A forma que os críticos encontram para te ilibar, um pouco infantilmente, é falar das doenças de pele documentadas em livros médicos que tu possuíste como se os livros médicos tivessem aparecido e sido lidos e observados por ti antes de pintares os teus monstros. Falam, como crianças que não reconhecem a gravidade dos seus jogos, como quem não se apercebe da diferença entre um livro médico, por um lado, e, por outro lado, um livro de desporto ou de política. É possível afastar-te das tuas responsabilidades com teorias correntes sobre o mundo de todos os dias? Sabemos que não é assim. Pintaste esses livros, com os teus quadros, com as doenças da pele que eles documentam: criaste todas as doenças da pele que há no mundo.

O teu contributo para a fábrica da filosofia, ou para a disciplina que alguns tanto acarinham, a ontologia, o estudo do que há, são os teus quadros inacabados. Já sabemos que andaste a criar mundos que nunca mais verdadeiramente voltaram ao redil. O que não sabemos é se estes pedaços de mundo só resultavam das tuas pinturas terminadas ou se, diversamente, começavam logo a destilar dos quadros ainda em construção. Olhando para as tuas obras inacabadas, que não distingo das abandonadas ou esquecidas, não consigo determinar-me sobre esse ponto: suponho que as colecções das obras interrompidas sirvam à ciência para estudar o estatuto ontológico da possibilidade em construção. Há quem acredite que a construção, além de tipicamente encerrar o enigma da pouca diferença (essa terrível semente de mostarda) entre o possível e o impossível, encerra ainda a principal ameaça do tempo: quando paramos deixamos de correr, em qualquer sentido que seja, do passado para o futuro; quando paramos cabe ao tempo escolher o sentido da jornada por vir. Ao parar, nunca sabemos se o próximo arranque será em frente ou às arrecuas.

Naturalmente, deixaste por morte um auto-retrato inacabado. Teria de ser forçosamente inacabado: um auto-retrato completo produziria um outro pintor como tu, Tu, e a simples ausência de um último auto-retrato inacabado deixaria os anteriores auto-retratos activos, a produzir-te pelos séculos dos séculos de novo, Tu entre nós, um regresso herético. Só um retrato incompleto, interrompido, poderia interromper a tua eterna produção de ti pela força dos teus pincéis e outros meios de fazer mundos através das telas.

Bebemos aos cardeais pendurados no açougue. Eles deixam em nós a mesma marca transviada da visão que te marcou cedo: a cara maculada de sangue da enfermeira do couraçado Potemkine, que nunca teve sangue nenhum em vida, mas teve-o todo no Couraçado Potemkine. E isso é que conta, porque assim se fazem os mundos. Pelas mesmas razões que diria que um crocodilo morto não existe, Latour, decerto, falaria de Francis Bacon como um pintor vivo. Mas isso há que perguntá-lo a Francis Bacon.

Somos todos mestiços: Considerações filosóficas sobre o diálogo intercultural

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


Nota biográfica

João Maria André nasceu em 1954 em Monte Real, Leiria. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1979), tendo-se doutorado pela mesma Faculdade com uma dissertação intitulada Sentido, simbolismo e interpretação no discurso filosófico de Nicolau de Cusa. É professor catedrático, ensinando nas áreas de Filosofia e do Teatro, e Diretor do Departamento de História, Arqueologia e Artes. É autor, entre outros livros, de Renascimento e Modernidade: do poder da magia à magia do poder (1987), Sentido, simbolismo e interpretação no discurso filosófico de Nicolau de Cusa (1997), Pensamento e afectividade (1999), Diálogo intercultural, utopia e mestiçagens em tempos de globalização (2005) e Multiculturalidade, identidades e mestiçagem: o diálogo intercultural nas ideias, na política, nas artes e na religião (2012). Além da docência e da investigação, tem desenvolvido também a sua actividade como animador cultural, nomeadamente através da tradução, dramaturgia e encenação na Cooperativa Bonifrates de Coimbra e no Teatro Académico de Gil Vicente, de que foi Director de 2001 a 2005.

Caro amigo,

Carlos Antunes

Carlos Antunes

regresso agora de um novo passeio ao nosso Jardim da Sereia e é comovido que me dirijo a ti, como cidadão, arquiteto, tão impressionado pela devastação. Mas ocorreu-me que talvez pudéssemos encontrar uma resposta criativa e positiva para a desgraça.

Não tenho memória, e creio que ninguém terá, de uma devastação semelhante no Jardim e julgo que este dia não deve ser esquecido. Esta tragédia sublinha a fragilidade da natureza e dos elementos naturais, e sublinha também por isso a fragilidade da nossa própria existência. Foi essa lição que aprendi, eu que procuro sempre obsessivamente ver o lado positivo de tudo.

Julgamos sempre que árvores seculares nos sobreviverão e que o seu tempo é infinitamente superior ao nosso. Este acidente demonstra o contrário. Desde a primeira hora te falei da minha vontade de reutilizar a madeira das árvores tombadas, e na altura considerei a possibilidade de a utilizar num pavilhão de exposições sobre o ambiente que me encontro a desenhar a convite do município de Paredes. Agora reconsidero essa possibilidade. Do resultado deste passeio, ocorreu-me que talvez fosse possível fazer um novo uso dessa madeira no Jardim da Sereia. Trata-se no essencial de madeira de cedro, uma madeira de grande qualidade, e lembrei-me, observando comovido um grande cedro derrubado, que era possível desenhar sob ele – suspendendo-o com uma estrutura de madeira que reutilizava a madeira derrubada – um pavilhão de leitura para as crianças que frequentam o parque, sob o domínio da ludoteca. Um pavilhão que seria também um memorial que nos lembrasse para sempre este dia, em que confrontados com a tragédia erguemos a cabeça. Um memorial como uma resposta criativa do tempo contra o tempo, como escrevemos com o nosso amigo Luís Quintais, na memória descritiva da nossa proposta para o memorial do World Trade Center em Nova Iorque.

Se considerarmos esta possibilidade, deveremos falar o quanto antes, antecipando a fúria da motosserra que tudo limpa, até a memória.

Um abraço amigo do

Carlos Antunes

(sobre a devastação no Jardim da Sereia, em Coimbra, causada pela tempestade do dia 19 de Janeiro de 2013)

Do Atelier do Corvo

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


«(…) os trabalhos do Atelier do Corvo materializam poesia, especialmente na proposta do concurso para uma escola primária na zona do Sahel (2002). Aqui, o dito Momento Português relaciona-se com o abrigo sensível, de fácil construção e clara compreensão para o utilizador final. As propostas mais interessantes do Atelier do Corvo são aquelas em que, não seguindo os cânones correntes, é percorrida uma fronteira preclitante entre a abstracção significativa e o contexto imediato, formalmente perceptível. (…)»

Wilfried Wang, “O Momento Português”, no catálogo da exposição Arquitectura: Portugal fora de Portugal, organizada pela Ordem dos Arquitectos, por solicitação da Presidência da República, para acompanhar Sua Excelência, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, na visita a Berlim.

Nota Biográfica:

Carlos Antunes nasceu em Coimbra, Portugal, a 9 de Junho de 1969. Estudou Arquitectura na FAUP e entre 1995 e 1996 formalizou o Atelier do Corvo com a arquitecta Désirée Pedro. Desde 2008 é professor auxiliar convidado do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde lecciona as disciplinas de Desenho I e Projecto I. Costuma dizer que dar aulas alterou a sua relação com a disciplina. Só vale verdadeiramente a pena ensinar quando estamos mais dispostos a aprender do que a leccionar. Em 2010 assume a Direcção do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, do qual é sócio desde 1987. Vive em Miranda do Corvo com Désirée e os seus dois filhos, Tomé e José.

Breve nota sobre ler Herberto Helder

Julião Sarmento

Julião Sarmento

Eu viajava no metro, como todos os dias, em direcção ao centro do Porto. Como todos os dias, sentado ou de pé, eu lia. Nesse fim de tarde, no outono: A Faca Não Corta o Fogo, de Herberto Helder. Lia os poemas, enquanto passavam as estações, enquanto tudo ia caindo para trás, para a noite. Até que uma asfixia, literal, literalíssima, me tomou. Uma escassez – ou seria excesso – de oxigénio, contracção invisível do diafragma, fechamento dos pulmões, inexplicável, o pânico. Precisei de parar de ler, fechar o livro, sair à pressa do metro, regressar ao frio da cidade em volta, deixar passar muito tempo antes de retomar A Faca Não Corta o Fogo.

Tudo isto seria um acidente, irrisório, não valeria a pena escrever sobre coisa tão pouca – se não houvesse outros testemunhos, concordantes. Porque, nos dias seguintes, ainda assustado com a rebeldia do meu corpo, estive atento. Eu sabia que outros, outras, liam também A Faca Não Corta o Fogo. Perguntei. E uma leitora disse-me: lia, não conseguia parar de chorar. E um leitor: que estava a ler Herberto Helder, um amigo ligou-lhe; o leitor não conseguia falar, responder ao telefone, e o amigo perguntou: sentes-te bem? o que se passa com a tua voz? aconteceu alguma coisa? E eu compreendi que estávamos – todos nós, leitores isolados, cada um de nós sozinho – possuídos por A Faca Não Corta o Fogo.

Quando se transforma uma sequência de acasos, de ocorrências singulares, numa lei da leitura? O que significa isto: leitores, sozinhos, perante o mesmo livro, vivendo a mesma comoção, o corpo na mesma revolta?

Decerto não sei explicar. Toda a gramatologia não chega para compreender o que acontecia àqueles corpos, os nossos. Eu lia, por exemplo,

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda

ou:

o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas

ou ainda:

basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música

eu lia, leio estes ou outros versos de A Faca Não Corta o Fogo, ou de qualquer outro livro de Herberto Helder, – e também o meu corpo, o corpo do leitor, da leitora, se abre pela boca, e se lhe raia a cara, perde o fôlego e respira de sôfrego, perde a fala quotidiana, dói todo, fica cego, desfaz os nós, alcançado pelo ar, abraçado, sob a música inquieta, inconjunta, pura. Ao corpo do leitor, da leitora, acontece o mesmo que aos corpos no poema – na mais profunda e inesperada mimesis do poema pelo corpo.

O cravista holandês Bob van Asperen disse um dia, numa entrevista concedida à revista Goldberg:

Uma execução musical experimenta-se. Nas boas interpretações, o ouvinte tem tendência para participar, e esta tendência ganha uma realidade física. Constatou-se cientificamente que, quando se ouve um canto, acontece algo na garganta, a garganta quase quer imitar o canto, e efectivamente tenta fazê-lo. É uma reacção física. (…) O ouvinte sente que algo dança dentro de si.

Cito inúmeras vezes estas frases de Bob van Asperen. Elas dizem que não há o sujeito ouvinte e o objecto musical ouvido – mas que o sujeito é imediatamente acontecimento da música, possessão. Quem ouve o canto sofre metamorfoses nos seus órgãos. Quem ouve transfigura-se, o ouvinte é possuído.

E se for também assim com a poesia? Se os poemas de Herberto Helder transfigurarem a carne de quem os lê? Se os versos insinuarem metamorfoses, e os órgãos – não só a garganta, mas também a boca, a cara, os dedos, o corpo todo – imitarem, automáticos, as formas ditas pelos versos? Se, em suma, cada poema der ao corpo do leitor a forma de um corpo novo, se o poema inventar no leitor lágrimas, silêncios, asfixias?

Então talvez o nosso corpo não nos pertença, mas ao poema.

Pedro Eiras

ASPEREN, Bob van
1997 entrevista concedida a Ambrosio Lacosta, in Goldberg, nº 1, Pamplona: 52-61.

HELDER, Herberto
2009 A Faca Não Corta o Fogo, in Ofício Cantante. Poesia completa, Lisboa, Assírio & Alvim: 533-618.

Cibernética, sociedade e socialismo

Ouça o podcast ou descarregue-o aqui.


Hermínio Martins foi professor nas Universidades de Leeds, Essex e Oxford, professor visitante nas Universidades de Harvard e Pennsylvania, e investigador-coordenador convidado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Emeritus Fellow em St. Antony’s College (Universidade de Oxford), e investigador honorário do ICS-UL.
Tem livros publicados em Portugal, como por exemplo, Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social; Classe, status e poder e outros ensaios sobre o Portugal contemporâneo (Imprensa de Ciências Sociais); Experimentum humanum –civilização tecnológica e condição humana (Lisboa, Relógio d’ Água, 2011).
Mais recentemente publicou o artigo Empresas, mercados, tecnologia – Uma perspectiva biográfica, na revista portuguesa NADA, no. 16, 2011, pp. 16-39.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 28 outros seguidores

%d bloggers like this: