À PROCURA DE WITTGENSTEIN

Se, segundo o seu biógrafo Ray Monk, a primeira pergunta com a qual Wittgenstein chocou, aos catorze anos – já que ele repete várias vezes que não procura os problemas, os problemas é que vêm ter com ele atrapalhando a sua vida – porque dizer a verdade se me é conveniente mentir? Então há duas coisas a notar: primeiro, não é por acaso que se trata de um problema prático, ético, e não teórico, e, segundo, é uma pergunta que impõe ser respondida não de maneira filosófica, segundo alguma regra de uma qualquer teoria Ética, à qual Wittgenstein nega a possibilidade de existir, mas de uma maneira religiosa: Não devo mentir porque isso fere o divino em mim.

POSTER SESSÃO #13 : 22 MAIO

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Coimbra, século deposto

Para Pedro Paixão

Lembro-me dele à procura de Inez
na cidade pequena
de província,

tão solene, tão sem princípios.
Guiava furiosamente,
precipitamente

no encalço de Inez:
«Vamos à vida, porque a morte
é certa, meu querido amigo».

Melhor seria esse fim,
o da escrita, como se testemunhasse
os últimos dias na terra

e quisesse ainda habitar a alegria
de poder contá-los.
Hoje, tantos anos depois, a sua voz

estala como lenha no Inverno
e sacode-me
como música esquecida,

violência onde se sonha
toda a história, a que passa por nós,
a que sem bagagem nos levará

até à desmedida fronteira.
Vociferam os deuses no descampado,
cresce a erva, agonizam metais e sombras.

Vivemos depois do fim
e continuamos à procura de Inez,
os dois, como se algo nos teimasse

em fugir e guiássemos, ambos,
furiosamente, precipitamente
para lá, até lá.

Haverá ainda música para nós
e a música será o lugar do justo e do bom,
o início improvável que aqui nos trouxe.

Luís Quintais, 30. 04. 2012

Conhece-te a ti mesmo


«A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. (…) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações.» (Theodor W. Adorno, «Caracterização de Walter Benjamin», 1955: 23)

 

«E eu não tenho, de modo algum, tempo para essas coisas. A razão, meu amigo, aqui a tens: ainda não fui capaz, como manda a inscrição délfica, de me conhecer a mim mesmo. Parece-me ridículo que, desconhecedor ainda dessa realidade, me dedique ao exame do que me é estranho.» (Platão, Fedro, s/d: 31)

«Mas conhecer os homens, e conhecer-nos a nós próprios, estar atentos às nossas emoções, em todas indagar e amar os caminhos mais planos e curtos da natureza, julgar cada coisa de acordo com a respectiva intenção: isto é o que aprendemos no convívio com ele; isto é o que Eurípedes aprendeu com Sócrates, e que fez dele o primeiro na sua arte. Feliz o poeta que tem um amigo assim, e que se pode aconselhar com ele todos os dias, a qualquer hora!» (Gotthold Ephraim Lessing, Dramaturgia de Hamburgo, 1767-8: 81)

 

«– Estás a pensar? – perguntou.

– Não – respondeu a miúda.

– Então pensa – disse Madame von Bartmann com uma voz forte, voltando-se para ela. – Pensa em tudo, o bom, o mau, o indiferente; em tudo, e faz tudo, tudo! Antes de morrer, tenta saber o que és.» (Djuna Barnes, Uma Noite entre os Cavalos, 1929: 21)

«Em relação aos outros só me resta: adivinhar.

– Conhece-te a ti próprio!

Eu já me conheço. E isso não me facilita em nada o conhecimento do outro. Pelo contrário, quando começo a avaliar alguém de acordo comigo própria, surge um mal entendido após outro.» (Marina Tsvietaieva, Indícios Terrestres, 1919: 64-5)

 

«O problema és tu. E não se vislumbra um aluno para o resolver.» (Franz Kafka, Considerações sobre o Pecado, o Sofrimento, a Esperança e o Verdadeiro Caminho, s/d: 16)

 

«chamar-te-ão “o que se conheceu a si mesmo”. Porque o que não se conheceu a si mesmo não conheceu nada, mas o que se conheceu a si mesmo começou já a ter conhecimento sobre a profundidade do Todo.» (Livro de Tomé, o Atleta, s/d: 264)

«colocar no átomo o “conhece-te a ti mesmo”.» (Gonçalo M. Tavares, Livro da Dança, 2001: 100)

«o Reino está dentro de vós e está fora de vós. Quando vos chegueis a conhecer a vós próprios, então sereis conhecidos e sabereis que vós sois os filhos do Pai vivente. Mas se vós não vos conhecerdes, então ficareis na pobreza e sereis a pobreza.» (Evangelho de Tomé, s/d: 81-2)

 

«Mas aquele que soube descobrir-se a si mesmo proclama: “Este é o meu bem, este é o meu mal.” Com isso tapou a boca à toupeira, ao anão que diz: “Um único bem para todos, um único mal para todos.”» (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, III, 1884: 217)

«Não é necessário que todo aquele que possui tudo conheça tudo?» (Evangelho de Filipe, s/d: 47)

 

«Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.» (Clarice Lispector, A Hora da Estrela, 1977: 18)

 

«Conhece-te a ti mesmo. Máxima tão perniciosa quanto hedionda. Quem se observe a si próprio paralisa o seu desenvolvimento. A lagarta que procurasse “conhecer-se a si própria” nunca se tornaria borboleta.» (André Gide, Os Novos Alimentos, 1935: 222)

«Não concordo que a diagnose seja “estática” ou o “conhece-te a ti mesmo” um conselho à quiescência.» (Ezra Pound, Patria Mia, 1950: 39)

 

«Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para nada. Sou gratuito e pago as contas de luz, gás e telefone. Quanto a ela, até mesmo de vez em quando ao receber o salário comprava uma rosa.» (Clarice Lispector, A Hora da Estrela, 1977: 36)

«Nós, os investigadores do conhecimento, desconhecemo-nos. E é claro: pois se nunca nos procurámos, como havíamos de nos encontrar(Friedrich Nietzsche, A Genealogia da Moral, 1887: 9)

 

«e não foi em vão que disse a mim próprio noutro tempo: “Torna-te no que és.”» (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, IV, 1885: 266)

«Caro J.K.,
(…)
O que fazes na vida, ou seja, não só como artista, mas também como homem, marido e pai, amigo, vizinho, etc., tudo isso se aprecia em função do “sentido” eterno do mundo e segundo os critérios da justiça eterna, não por referência a qualquer medida estabelecida, mas aplicando aos teus actos a tua própria medida, única e pessoal. Quando Deus te julgar, não te perguntará: “Foste um Hodler, um Picasso, um Pestalozzi, um Gotthelf?” Mas perguntar-te-á: “Foste e és realmente aquele J.K. para o qual herdaste determinados dons?” Perante tal questão, nunca homem algum evocará sem vergonha e sem terror a sua existência e os seus erros; quando muito, poderá responder: “Não, não fui esse homem, mas ao menos esforcei-me por tornar-me nele, na medida das minhas forças.” E se ele puder dizê-lo sinceramente, estará então justificado e sairá vencedor desta prova.» (Hermann Hesse, Carta a um Jovem Artista, 1949: 9-10)

«Num tom pré-nietzschiano, o Rabino Zusya de Hanipol exortou vivamente: “No outro mundo, não me vão perguntar: ‘Por que não foste Moisés?’ Vão perguntar-me: ‘Por que não foste Zusya?’”» (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 127)

 

«Na verdade, também eu aprendi a esperar, mas a esperar-me a mim mesmo.» (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, III, 1884: 218)

 
 

Pedro Eiras

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Nunca tive jeito para a geometria

Haiku contra a geometria romântica

Nunca tive jeito para a geometria
porque vejo sempre na pirâmide
o suor de quem a construía.

Fernando Grade

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POSTER SESSÃO #12 : 17 ABRIL

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MILPLANALTOS, UM ANO DEPOIS

Um ano depois de termos criado Milplanaltos, descobrimos, não sem algum assombro, que o nosso desafio se tem vindo a cumprir: conseguimos mobilizar todo um conjunto de investigadores e criadores que trabalham na fronteira, isto é, cujo trabalho não pode ser subsumido a uma lógica disciplinar ou a uma axiologia. Pessoas como Manuel Portela, Pedro Eiras, Ernesto Costa, Marta de Menezes, Porfírio Silva, António Sousa Ribeiro, entre outros nomes, não parecem particularmente interessados em habitar uma zona de conforto qualquer do pensamento contemporâneo, e mostram-nos como pensar é, sugerem-nos Gilles Deleuze e Félix Guattari no seu magnífico tool kit do pensar e do experimentar que é Mille Plateaux, desterritorializar, implementar uma espécie de máquina de desmontagem do óbvio e do obtuso. Pensar e experimentar (termos que aqui se nos afiguram permutáveis) deslocam-nos e surpreendem-nos. Fazem-nos também perceber como precisamos, em tempos que parecem comprazer-se com a esterilidade e com a melancolia, de talentos projectivos que nos conduzam ao novo, mesmo que esse novo reclame uma revisão do que existiu e existe. Depois há a dimensão pública e política do que se faz (na academia e fora dela). É isso também Milplanaltos: um espaço que pretende trazer à cultura contemporânea em sentido amplo tudo aquilo que poderá ainda refundar o mundo. Um espaço de experimentação, diálogo e incerteza também. É bom enaltecer a incerteza, a indeterminação e o ruído, como tropos que reivindicam a possibilidade de criação e de refundação do mundo. Foi isso a que nos propusemos. E assim continuará a ser. Uma constelação de propostas que vão da inteligência artificial às humanidades, passando pela arquitectura e pelas artes visuais, aproximando e ligando matemática a poesia, filosofia política a ciência cognitiva, literatura a cinema, culturas digitais a inusitadas formas de escrita. Tudo nos interessou e tudo nos interessa, desde que revele essa transposição de domínios que Deleuze enuncia:

É como os pássaros de Mozart: há um devir-pássaro nessa música, mas apanhado num devir-música do pássaro, os dois formando um único devir, um só bloco, uma evolução a-paralela, de modo nenhum uma troca, mas «uma confidência sem interlocutor possível», como diz um comentador de Mozart – em resumo, uma conversa (Gilles Deleuze e Claire Parnet, Diálogos, p. 13).

É isso Milplanaltos: uma conversa.

Neste primeiro aniversário, vamos publicar os Cadernos Milplanaltos. Estes Cadernos são uma extensão do nosso projecto. Dois títulos: Um Dia Feito de Vidro (de Manuel Portela) e Os Ícones de Andrei. Quatro diálogos com Tarkovsky (de Pedro Eiras). O lançamento e a celebração estão agendados para o próximo dia 10 de Abril às 18. 30 h no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), piso térreo da Casa Municipal da Cultura, Parque de Santa Cruz. Os Cadernos de Manuel Portela e de Pedro Eiras serão apresentados por Abílio Hernandez Cardoso, alguém que pensa numa fronteira entre o cinema e a literatura que ele próprio criou.

Milpanaltos é uma actividade do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), com a parceria do Museu da Ciência, da Casa da Escrita e, agora também, do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC).

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O PEIXE BINÁRIO


Passo a transcrever um excerto de Claude Lévi-Strauss, capítulo 2 de Mito e Significado, originalmente publicado em inglês (Myth and meaning, 1987), resultado de uma série de palestras radiofónicas para o grande público. Existe em português, nas Edições 70, donde transcrevo. Os destaques são meus e têm a ver com o comentário que quero deixar depois. Continuar a ler

O mundo em reverso ou Time’s Arrow de Martin Amis

christian boltanski . autel de lycée chases [furnace bridge of chases high school], 1986 – 1987

A estrutura narrativa do romance de Martin Amis, Time’s Arrow or The Nature of the Offense (1992) é desenvolvida a partir da possibilidade de um tempo em reverso e através de uma personagem sem memória (Tod Friendly), que mais tarde se revela ser uma figura que colaborou com os nazis no campo de extermínio de Auschwitz. Esta narrativa parece prestar-se à reflexão no contexto dos actuais debates dentro da História, da sua ligação com os estudos sobre a memória e do Holocausto como evento de um passado qui ne passe pas. Continuar a ler

ARTE E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Tipicamente associamos a Inteligência Artificial à capacidade de resolução de problemas, optimização, raciocínio lógico, sistemas de diagnóstico, etc. No entanto, as capacidades criativas, artísticas, estéticas e emocionais são parte fundamental daquilo que nos torna humanos e seres inteligentes. A Inteligência Artificial estará condenada ao fracasso se negligenciar estes aspectos da inteligência. Os sistemas inteligentes são uma realidade, no sentido que existem máquinas capazes de igualar ou superar os humanos em inúmeros problemas que requerem inteligência. O grande desafio é o desenvolvimento de sistemas criativos.

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